quinta-feira, 18 de junho de 2009

Eros e Psiquê - o Amor e a Alma

Psiquê era uma princesa filha do rei de Mileto, a mais nova de três irmãs. Era tão bela que a comparavam a Afrodite, deusa da beleza. Só que Afrodite não gostou da comparação e resolveu vingar-se pedindo a seu filho Eros que a atingisse com um dos seus dardos e a fizesse apaixonar-se pelo homem mais vil e cruel sobre a terra.
O jardim de Afrodite tinha duas fontes: uma de água doce e outra de água amarga. Para satisfazer o pedido da mãe, Eros encheu dois vasos de âmbar, cada um com o seu tipo de água e voou até ao quarto onde cândidamente Psiquê dormia. Inclinado sobre a jovem, deitou umas gotas da água amarga sobre os seus lábios e tocou-a de lado com a ponta de uma das suas setas. Ferida, Psiquê acordou e com o seu gesto sobressaltado fez com que o deus se espetasse com a sua própria seta. Ferido com o seu veneno, Eros derramou então gotas de água doce sobre os cabelos da jovem.
Foi a partir desse dia que os ,até aí ,inúmeros pretendentes se evaporaram. Solitária desde então, Psiquê chorava, revoltada com uma beleza que não despertava já nem admiração, nem amor, ou mesmo desejo.
Consultado pelos pais da jovem o oráculo de Apolo, em Delfos, este declarou que Psiquê não estava destinada a ser esposa de um mortal. Deveria subir ao ponto mais alto da montanha onde seria desposada por uma serpente alada que lá se encontrava à sua espera. Nada podendo contra o destino, os pais de Psiquê conduziram-na à montanha onde a abandonaram.
Sozinha, Psiquê tremia de desgosto e de medo, chorando perdidamente. Zéfiro, o deus da brisa suave do Sul, fê-la então adormecer. Quando acordou, a jovem princesa viu-se num palácio maravilhoso, acompanhada por muitas servas que a cuidavam. E sossegou um pouco das suas aflições.
Na noite seguinte, foi acordada por uma voz doce. Na escuridão, sentiu-se enlaçada por um corpo cuja pele e formas musculadas lhe pareceram de grande perfeição. Porém, ao acordar, o seu amante tinha-se ausentado. E este ritual manteve-se até à altura em que a jovem, intrigada, lhe pediu que a deixasse ver-lhe o rosto. Da escuridão, o amante respondia-lhe que no dia em que ela o visse ele seria obrigado a desaparecer e abandoná-la para sempre. Então a jovem resignou-se e era muito feliz até à altura em que, curiosas, as suas duas irmãs foram visitá-la. Invejaram a sumptuosidade em que a irmã mais nova vivia e criticaram-na muito quando souberam que nunca tinha visto o rosto do marido e futuro pai do seu filho e por quem a jovem confessava estar profundamente apaixonada. E até lhe disseram como saber o que queria: usando de astúcia.
Uma noite, conservou-se acordada para ouvir o amante chegar. E, quando este adormeceu, acendeu uma lamparina de azeite para o ver e ficou deslumbrada com a sua extrema beleza. Ao curvar-se para o beijar, enternecida, derramou uma gota de azeite quente sobre o seu ombro direito, o que o acordou. E o jovem exclamou, penalizado:
- Disse-te tanta vez que no dia em que visses o meu rosto eu teria que desaparecer!
Colocou então sobre os ombros a capa que o tornava invisível aos humanos e fugiu. Perseguido pela jovem princesa completamente desvairada, ainda lhe gritou que era Eros, o deus do Amor e filho de Afrodite.
Abandonada, caindo em si, Psiquê lamentou o que fizera e que pusera fim irremediável à sua felicidade.
Então, em desespero, resolveu pedir a Zéfiro que a levasse junto de Afrodite para lhe suplicar que tivesse compaixão do seu infortúnio, mas a deusa repeliu-a e condenou-a a vaguear pelo mundo. O sofrimento e a busca incessante do amante que sempre lhe fugia cansaram-na tanto que , disposta a enfrentar a morte, acabou por cair numa profunda sonolência.
Ainda que traído na sua confiança, Eros sofria por ver o sofrimento da esposa e implorou a Zeus, o senhor do Olimpo, que se compadecesse da infortunada. Então, com a permissão de Zeus, Eros despertou Psiquê do sono profundo em que caíra e arrebatou-a consigo para o Olimpo, a morada dos deuses. Zeus oficializou os esponsais dos dois amantes e ele próprio deu a ambrosia a Psiquê, tornando-a imortal.
É a partir daqui que Eros e Psiquê - o Amor e a Alma - enlaçarão eternamente os seus destinos. E é desta união que nascerá a Volúpia.