Ocorreu um erro neste dispositivo

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Não Tenho Tempo - poema de Vítor de Sousa


Foi uma das minhas filhas que me enviou este poema, colhido ao acaso pela Web. Não sei se quis significar-me que não encontrei tempo para ela, que lhe faltei com o tempo, mas devotei ao seu bem estar e dos irmãos todo o que me foi possível. Eram três, uma casa grande, sem auxílios para a lida da casa porque o ordenado de uma empregada dava para pagar as aulas de Conservatório para eles - e depois não sobrava, - sempre com pontos para ver e livros para ler e a preparação das aulas dos alunos ... a falta de tempo era uma constante, sim. Mas durante anos e anos não viajei, não soube o que era tomar bica com amigos, não fui ao cinema a não ser com eles, filhos, não fui à praia senão com eles, as minhas amigas eram eles, a minha primeira e última preocupações eram sempre eles. Vivi assim, com raras intermitências, até cada um deles ir saindo para a Faculdade e, se os avós iam buscá-los em tempo de férias, era quando me sentia mais só apesar do cansaço. Lembro-me que me metia em casa dias seguidos, lia muito para esquecer um qualquer vazio que então se fazia sentir e o tempo era marcado por uma tremenda sensação de perda a que preferia não dar nome. Mas eles regressavam e a lida incessante amordaçava fantasmas e eu voltava a viver.
E quando cada um deles tomou o seu rumo... conheci o síndroma do ninho vazio. E de que maneira!
Ainda que não me revendo nele, vou deixar aqui o poema para que alguém o leia e reflita. Os pais estão normalmente mais livres e eles tiveram um que, ao longo de cinco anos, apenas a 60 kilómetros de distância e com boa estrada, nunca os procurou, nem os viu crescer, retaliação contra mim, suponho, e que entendeu por bem que enviar-lhes prendas no Natal e nos aniversários era mais que suficiente. Veio ao casamento de cada uma das duas filhas, e foi só. Além disso pagou estudos e deu tecto apenas a uma. A que me mandou este poema já não teve direito... por falta de perseverança dela e aparente falta de verba do pai. Entretanto, eu ocupava-me da educação do rapaz, o mais novo.
Mas vamos ao poema.

" Sabes, meu filho, até hoje não tive tempo para brincar contigo. Arranjei tempo para tudo, menos para te ver crescer. nunca joguei dominó contigo, damas xadrez, ou batalha naval. Eu percebo que tu me procuras, mas, sabes, meu filho, eu sou muito importante e não tenho tempo. Sou importante para números, convites sociais e toda uma série de compromissos inadiáveis. Como largar tudo isso para brincar contigo? Não, não tenho tempo.

Um dia trouxeste o teu caderno escolar para eu ver e ficaste ao meu lado. Lembras-te? Não te dei atenção e continuei a ler o jornal. Porque afinal... afinal os problemas internacionais são mais sérios do que os da minha casa. Nunca vi os teus livros, não conheço a tua professora. Nem me lembro qual foi a tua primeira palavra. Mas, tu sabes, eu não tenho tempo. De que adianta saber as mínimas coisas a teu respeito se eu tenho outras grandes coisas a fazer?

É incrível como tu cresceste! Estás tão alto! Nem tinha reparado nisso. Aliás, eu quase não reparo em nada. E, nesta vida agitada, quando tenho tempo, prefiro usá-lo lá fora, porque, aqui, fico calado diante da televisão.
Porquê? Porque a televisão é importante e informa-me muito.

Sabes, meu filho, a última vez que tive tempo para ti foi numa noite de amor com a tua mãe. Eu sei que tu te queixas, eu sei que tu sentes a falta duma palavra, duma pergunta amiga, duma brincadeia, dum chuto na tua bola. Mas eu não tenho tempo. Eu sei que sentes a falta de um abraço e de um sorriso, de um passeio a pé, de ir até ao quiosque, ao fundo da rua, comprar um jornal, uma revista. Mas sabes há quanto tempo eu não ando a pé na rua? não tenho tempo. Mas tu entendes: eu sou um homem importante. Tenho de dar atenção a muita gente, eu dependo delas. Meu filho, tu não entendes nada de comércio. Na realidade eu sou um homem sem tempo. E sei que tu ficas triste porque as poucas vezes que falamos é um monólogo - só eu é que falo.

Eu quero silêncio. Quero sossego e tu tens a péssima mania de querer brincar com a gente. Tens a mania de saltar para os braços dos outros. Filho! eu não tenho tempo para te abraçar. Não tenho tempo para conversas e brincadeiras de crianças.

Filho, o que é que tu percebes de computadores, comunicação, cibernética, racionalismo? Tu sabes quem é Descartes e Kant? Como é que eu vou parar para falar contigo? Sabes, filho, não tenho tempo. Mas o pior de tudo, o pior de tudo é que se tu morresses agora, já, neste instante, eu ficava com um peso na consciência. Porque, até hoje, até hoje não arranjei tempo para brincar contigo. E, na outra vida, Deus não terá tempo de me deixar, pelo menos, ver-te.