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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Pinóquio, a Fada Azul e o Grilo falante





Quando criança, a história de Pinóquio impressionou-me muito pela negativa, porque, aquele boneco fútil e brincalhão, só tarde e más horas se apercebeu que o que era mais importante na vida era saber amar. Nem era já tanto ser amado, mas aprender a amar de uma forma responsável. Para isso, a Fada Azul, aquela fadinha com varinha de condão e tudo, até lhe arranjou uma espécie de prefeito para o chamar à razão e lhe mostrar o caminho mais justo que não magoaria o afecto bondoso e tolerante do pai Gepeto.
Mas o tonto boneco não tinha emenda: faltava às aulas, só vivia para a brincadeira e, para fugir às responsabilidades, mentia descaradamente.O castigo era ver crescer o nariz de forma cruel, mas nem assim ganhava juízo, porque a mentira vivia como cupim no cerne da madeira de que fora feito.
Aquelas rocambolescas aventuras em que se metia não me faziam mossa - não me impressionavam nadinha. Comigo pensava que era bem feita e que tinha o que merecia porque não acatava os conselhos nem do pai, nem da madrinha e ainda menos da sua consciência, aquele pobre mentor de fraque e guarda-chuva que lhe fora disponibilizado e a quem, na hora da verdade, sempre deixava "a falar para o boneco" para fazer o que bem lhe apetecia.
De toda aquela história, de que verdadeiramente não gostava, havia duas, ou melhor, três coisas, que invejava ao atravessado herói: ter uma fada madrinha que se disponibilizava a ajudá-lo; uma consciência que lhe mostrava o caminho recto e ter um pai que, além de o ter criado do nada, ainda por cima era uma doçura de pessoa.
Se é certo que a Fada Azul o transformara quase em menino e lhe dera o dom da fala para alegrar a solidão de Gepeto, também era verdade que possuía uma varinha mágica. E os poderes daquela varinha mostravam-me maravilhosas perspectivas que se prendiam com beleza, bondade e justiça que, muito cedo, começara a distinguir e a reconhecer, sonhando-as.
Depois a pequenez do Grilo falante e o seu aspecto engraçado, aliados aos sábios juízos que emitia, faziam-me lembrar que se tivesse assim um bichinho daqueles que conversasse comigo nas longas horas em que brincava só, alertando-me para não cometer tolices, me pouparia ruidosos ralhos e desmesuradas sovas ao longo do dia e dos dias, porque eu era assim um bombo de pancada nas mãos de minha mãe. E esse aspecto era muito, muito importante, porque as pancadas doíam mesmo e os ralhos me perfuravam os tímpanos.
Por último,havia a forma carinhosa como Gepeto o tratava, suportando-lhe as traquinices, e conversando e dançando com ele.Aí via a diferença entre ele e um pai que coadjuvava a mãe nos ralhos nas poucas horas em que se encontrava em casa, além de frequentes vezes lhe ocupar cruelmente o triciclo robusto que não partia porque era feito de ferro pesado e madeira grossa e dura. As rodas chiavam então sob o seu peso e eu quedava-me admirada porque a mãe não aparecia a protestar contra o barulho que as rodas, também em ferro, faziam, chiando num louco frenesim de sons, no empedrado cimentado da larga entrada da casa. Tinha mesmo má vontade contra o pai nessas alturas, porque me privava de usufruir de um bem demasiadas vezes vedado, ou como castigo por alguma tolice, ou para não provocar o tal barulho que tanto contendia com o frágil sistema nervoso da mãe.
Acho que no meio de tudo isto só desculpava um pouquinho o Pinóquio por mentir. Era criança e aquela vontade de fazer diabruras e querer fugir depois às responsabilidades... era uma enorme tentação! As crianças são geralmente mitónomas até por volta dos catorze anos, mas eu cedo aprendi que ser apanhada numa mentira era sempre mais grave para mim do que assumir a verdade do facto, porque,se apanhada, além de uma tareia, ainda levava com uma boa camada de pimenta na língua que me deixava numa aflição sem nome.
Ora o Pinóquio além de não levar açoites, não tinha de suportar a pimenta...
Hoje penso como, pela vida fora, o meu amor à verdade me acarretou quantos reais transtornos!...quando crescer o nariz teria sido para mim, tanto em criança, como em adulta, o menor dos problemas?...
Vendo bem, o boneco Pinóquio ainda hoje me não é de todo simpático, porque, além de tudo o mais, ser uma Fada Azul ou um Grilo ajuizado, ou mesmo uma figura ternurenta como Gepeto, me daria muito mais prazer por poder contribuir para tornar o meu mundo bem melhor do que o que conheci em menina e ainda hoje conheço.