sábado, 21 de maio de 2011

Soneto martelado



A tarde, e por de mais calma,
Afogou-me o que ficara da partida
Tudo o que inventara, essa mentira querida
Que ficara fazendo as vezes da alma.
Passa e segue a triste gente calada
E o correio e a luz quebrada no muro
Trazem a tarde, recortando duro
O perfil triste e morno desta minha estrada
E choca e vem de mim até o céu polido
Liso e puro e sempre igual estendido
Sobre mim e a rua desolada,
Uma ilusão que nada tem de alada
E é feita de aço puro e diamantes:
Não querer tornar-me o que era dantes.

José Blanc de Portugal, Parva Naturalia