quinta-feira, 16 de junho de 2011

Cantiga


Moto do próprio

De que me serve fugir
de morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?

Voltas

Tenho-me persuadido,
por razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nascido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou meu perigo.

E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assim passe,
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.

Luís de Camões, Lírica