sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Mutação

Alguma coisa em nós se dissolveu
de quanto desejáramos ficasse.
Indago-me. É a mesma, a minha face.
Como é possível ter mudado eu?

Como é possível ter mudado tanto
a minha antiga voz de namorado?
São rasos de água os olhos que levanto.
Como é possível tanto ter mudado?

Já não consigo ver-te como outrora,
frágil, confiada, trémula, hesitante...
Que estranha força te mandou embora?
Que força imensa te mantém distante?


A nossa casa entanto continua
aberta. par em par, ao claro dia.
Vou à janela e vejo a mesma rua,
o mesmo céu, a mesma nuvem nua,
a mesma gente ingénua, fugidia..
.
 Que foi?, tu não me dizes?, que razão,
dentro de nós, em sua voz, desfere
como num disco gasto: «O mundo é vão!»?

- Cheia de humana angústia, a minha mão
comprime-se na tua, sem saber.

António Luís Moita, Teoria do Girassol