segunda-feira, 30 de abril de 2012

A cor das cerejas...


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Não sei se o que me basta
me basta   É preciso ir até ao fundo
Pela minha relação comigo passam todos os outros: eu
não abaterei nunca uma árvore com um verso
não farei nunca um pão com uma metáfora
não retirarei carvão da minha escrita
não pescarei nenhum atum com a caneta
Sei a cor das cerejas é verdade
e faço um poema louco cheio de cerejeiras
no cimo das quais posso colocar um bando de melros
e matar os melros todos com dois tiros
ou com um simples risco sobre o verso
onde eu os tinha pousado

[...]

Joaquim Pessoa, in Noite Branca