quarta-feira, 25 de julho de 2012

Prece...


Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! Tu és os nossos corpos e as nossas almas, e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - ( o teu templo) - eis o teu corpo.

Dá-me a alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu.  Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como um pai.

...

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.*

Fernando Pessoa, in O Apelo ao Divino

* Oração escrita provavelmente em 1912, ano da ligação do poeta ao movimento da Renascença Portuguesa e inscreve-se no período dos poemas místicos de Além-Deus.