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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vidraça... o licenciado louco


Após ter passado por um processo de envenenamento, um  jovem, de nome Tomás,  licenciado por Salamanca, consegue sobreviver, mas sempre convencido ser um homem de vidro, como tal não permitindo que ninguém lhe tocasse, pois tinha medo de partir.
É este o assunto de uma novela de Cervantes de que postamos o excerto seguinte:

« - Saiba o senhor Licenciado Vidraça que um grande personagem da corte quer vê-lo e manda-o ter com ele.
- Desculpe-me vossa mercê perante esse senhor - respondeu Tomás - pois eu não sou bom para palácio, porque tenho vergonha e não sei lisonjear.
Apesar disso, o cavaleiro mandou-o para a corte. Mas, para o levarem, tiveram de usar de um estratagema: puseram-no numa padiola de palha, como aquelas onde se costuma levar vidro, preenchendo as partes vazias com pedras e pondo entre a palha alguns vidros, para se dar assim a entender, exactamente, que o levavam como um vaso de vidro.
Naquele tempo a corte estava em Valladolid. Fizeram por chegar lá de noite e despejaram-no na casa do senhor que o tinha mandado ir, o qual o recebeu muito bem e lhe disse:
- Seja muito bem vindo, senhor Licenciado Vidraça. Que tal foi a viagem? como vai de saúde?
Ao que ele respondeu:
- Nenhum caminho é mau desde que tenha fim; a não ser o que vai ter à forca. De saúde estou neutral, porque se encontraram os meus pulsos com o meu cérebro.»