sábado, 3 de novembro de 2012

«Perdição»...



Coimbra,12 de Outubro de 1958

Como a  tarde sem mim tem alegria!
como o sol vai contente sem me ver!
Uma noite de angústia em pleno dia...
Um tição na fogueira, sem arder...

Ah, danada trição de quem não sabe
Viver a vida!
Ah, pombas felizes
A catar o piolho do presente
Diante da tristeza dos meus olhos
Postos na eternidade!
Deus, a morte, a verdade,
E esta ilha de sombra
Num mar de luz!
Este molde vazio
De cada hora,
Agónico por dentro e fúnebre por fora

Miguel Torga, Diário VIII