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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Poço sem fundo...


Nilson Barcelli

No programa da tarde da SIC, ouvimos a viúva do Maestro Correia Martins, desaparecido de entre os vivos há uns três anos, vitimado por um ataque de coração, que confessava o seu desejo de apurar responsabilidades por serviços públicos para os quais a maioria dos portugueses descontam - e nem é tão pouco como se possa pensar para os que descontam.
A senhora queixava-se do atendimento de urgência do  INEM - 112  - que acusava de ter levado mais de uma hora para enviar socorro a um doente com um início de ataque cardíaco e que, para cúmulo do excesso de falta de zelo, obrigaram a descrever os sintomas. E como o Maestro, aflito, mas consciente, os descreveu, acharam por bem aconselhá-lo a tomar um veículo a expensas suas pois, se podia falar dos mesmos, seria por não estar tão mal assim...
Depois de uma hora e tal de espera, o Maestro Correia Martins ia seguir o conselho de se dirigir de automóvel aos serviços, quando, já com uma perna dentro deste e outra fora, entrou em agonia e morreu deitado na calçada da rua por não haver tempo para mais nada. Quando a ambulância chegou foi para verificar o óbito.
Parece que nesse dia, e a essa hora, o país futebolístico estava parado para assistir a um jogo importante entre não percebemos quem e o Futebol Clube do Porto, ou a selecção, ou algo do género, que vem a valer o mesmo. 
Diz-se que os Centros de Saúde se encontram às moscas desde que passaram a cobrar-se taxas moderadoras, ou mínimas, o que em nada nos admira. Ingenuamente, recorremos recentemente a um desses centros e em horas de expediente não nos demos conta que houvesse um médico ou enfermeiro de serviço, porque ou tinham saído para almoçar, ou para jantar, ou faziam outra coisa em outros lados menos nos serviços a que estão adstritos e do qual usufruem um salário, por parco que seja, e para o qual a seu tempo concorreram.
Já ouvi um representante da Ordem dos Médicos, ou talvez de um Sindicato de Profissionais de saúde, criticar a importação de médicos oriundos da Colômbia que se limitavam a receber um parco salário por  serviços prestados à população, retirando o lugar aos médicos residentes . Ouvimos uma autarca defender a sua opção pelos médicos colombianos, ou de qualquer outra nacionalidade, pela necessidade de bem servir as populações do seu concelho.
Ficámos com dúvidas na altura.
Porém, uma coisa nós sabemos: doença não conhece hora e há doenças súbitas que, se tratadas atempadamente, podem ser controladas. 
Agora se os serviços se encontram povoados por funcionários administrativos que aguardam impacientes a hora de saída e um outro que limpa corredores por onde ninguém circula, sem ao menos um médico ou enfermeira à vista, ou com uma dúzia de pacientes que aguardam calados a chegada de um deles que nunca está quando é preciso, temos sérias dúvidas sobre a necessidade desses serviços.
Falar em Centros de Saúde é o mesmo que falar de hospitais e da forma como lidam com urgências. A ter de pagar, quem pode recorre a serviços qualificados, por norma, privados. Contudo, até nestes a falta de atenção para com os enfermos produz vítimas. 
Que haja um só médico e um só enfermeiro, mas que estejam presentes às horas previstas, pelo menos um deles, que apelaria para um outro em caso de necessidade. 
Assim é que não dá a não ser para videirinhos que só devem marcar presença para assinar o ponto, ganhando depois um outro salário em outras frentes.
E, das duas, uma: - ou há doentes e doenças que justifiquem a existência da maioria dos serviços de saúde, ou alguém está a entrar no bolso de todos nós.