quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Braços longos...


Quem me espera na hora sem lugar,
está mudo e branco sob a luz velada;
dos braços longos escorre-lhe o calor
de séculos de amor e voz cerrada.

Morreu de sonho à proa do navio,
que tem, pintadas, flores de cores, bravias,
e um doce aroma de almas navegantes...

Morreu de sonho! E os pássaros do rio
voaram-lhe a agonia, triunfantes.

Então os braços removeram anos,
 desencontros, renúncias, esquecimento,
e partiram, floridos e secretos,
ao meu encontro frágil no momento.

Escutei-lhe a pele na minha pele dorida.
Senti-lhe o jeito ( o jeito de manhã
do princípio do Mundo ).
Esses braços cantavam como cisnes
e era eu quem morria!

[...]

Ciclones, ventos mansos, frescas brisas,
correndo praias de alvos areais,
batendo os mastros de canções salgadas,
de torrentes, de cheiros, de cristais:
dizei-lhe, uma vez mais, que a vida é breve
e o espero onde me leve a sua espera
 - no céu, no mar, no escuro, no convés...
Ah!, dizei-lhe que é sua a aérea boca
que eu sinto às vezes a tocar-me os pés.

Natércia Freire, in Anel de Sete Pedras