segunda-feira, 4 de março de 2013

FADO


Quem passeia de negro meu cansaço
sob árvores queimadas de um incêndio?
Decerto quem cantou ao meu ouvido
os versos cuja rima era o silêncio.

Quem agora me arrasta pelas cinzas
foi quem já me embalou na mão das águas
e, sobre a lua gasta, pôs o archote
que consumia em lágrimas as mágoas.

Minha fadiga veste-se de luto
e canta para si mesma em voz de choro,
e a terra esquece as culpas que lhe cabem,
e arranca dos punhais fulgências de ouro.

Dormem os troncos nus salvos do fogo.
As folhas raras olham a noite imensa.
( Pupilas da floresta vigilantes!...)
Passeia o meu cansaço quem não pensa;

passeia o meu cansaço um braço inerte,
e arrasta-o pelas cinzas, velho arado.
Porém toda a semente foi perdida,
secou a seara; e, agora, há um novo fado!...


Alexandre Pinheiro Torres, Novo Génesis