segunda-feira, 3 de junho de 2013

Canção da Felicidade...



Ideal dum parisiense

Felicidade! Felicidade!
Ai quem ma dera na minha mão!
Não passar nunca da mesma idade,
Dos 25, do quarteirão.

Morar, mui simples, nalguma casa
Toda caiada, defronte o Mar;
No lume, ao menos, ter uma brasa
E uma sardinha pra nela assar...

Não ter fortuna, não ter dinheiro.
Papéis no Banco, nada a render:
Guardar, podendo, num mealheiro
Economia pró que vier.

Ir pelas tardes, até à fonte
Ver as pequenas a encher e a rir,
E ver entre elas o Zé da Ponte
Um pouco torto, quase a cair.

Não ter quimeras, não ter cuidados
E contentar-se com o que é seu,
Não ter torturas, não ter pecados,
Que, em se morrendo, vai-se pró Céu!

Não ter talento; suficiente
Para na vida saber andar,
E quanto a estudos saber somente
( Mas ai somente!) ler e contar.

Mulher e filhos! A Mulherzinha
Tão loira e alegre, Jesus! Jesus! 
E, em nove meses, vê-la choquinha
Como uma pomba dar outra à luz.

Oh! grande vida, valha a verdade!
Oh! grande vida, mas que ilusão!
Felicidade! Felicidade!
Ai quem ma dera na minha mão!

                                                                   Paris, 1892

António Nobre,