terça-feira, 30 de julho de 2013

O Abraço...


Alta rocha, sustém-me, que esmoreço!
De amor não sei se estou para expirar...
Como me anseia... Enquanto não faleço,
Com a noite quero aqui desabafar.

Ó meu, ó meu amor, aonde fugiste,
Onde estou eu agora e onde estava?
A alma começa a conhecer o que existe.
Que até agora sabia só que amava.

Não estive num mar quase afogado,
De inefável, angélica ternura?...
Respiro apenas... inda estou cercado
De estranha, grossa nuvem de luz pura.

De amor prodígios, inda não ouvidos,
Que absorto sinto e que entender não sei!...
Solta-me a alma dos mortais sentidos,
Ou acordo de um sonho?... Ah! não sonhei.

Não, não sonhei; que estes teus braços vejo
Inda na acção de me abraçar, pasmados!
Não sonhei, não; que inda o celeste beijo
Gozo nos beiços mais que namorados.

Sinto estalar-me docemente o peito
Com ímpetos dum coração que é teu;
Coração que em amor se viu desfeito
Na doce vizinhança desse meu.

[...]

José Anastácio da Cunha (1744-1787)