terça-feira, 12 de novembro de 2013

Port Wine...


O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape- Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.
[...]

Em Londres os lords e em Paris os snobs
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
 acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue, 
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! - ou morre.

Joaquim Namorado - A Poesia Necessária (1966)