segunda-feira, 23 de julho de 2018

Gastar a vida...


Gastou-se o amor e a ira
fugidos no tempo
de precoce abandono.
e no esquecimento.
nem a crueldade pura do sol
nem a transparência livre da água
catarsificou o sentimento...
tudo rodou, rodopiou ao vento.

Correu, girou, calou...

Foi assim... gastou-se no momento
... e passou.


Maria - (25/03/1993)


terça-feira, 3 de abril de 2018

João Villaret - O Mostrengo de Fernando Pessoa



Quantos mostrengos nos rodeiam cada dia!...
Há que saber conseguir a coragem de enfrentá-los até ao último dia em que já nem nos interesse combatê-los!...

sábado, 31 de março de 2018

Ainda é tempo de frio...

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

*
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno - 
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar -
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.
*
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.
*
*
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.
 
Fernando Pessoa, in Poemas Completos de Alberto Caeiro