terça-feira, 6 de setembro de 2011

«Como é natural»

Vão longe os anos de intermezzo
quando a brisa indolente passeava
doce esperança à flor dos lábios mudos

Se uma folha caía se um rumor
brando acordava o silêncio mal represo
quanto alarme no ar de flores coberto

Vão longe os tempos de alvoroço
de fronteira a fronteira imaginária
rara aventura agora impessoal
uma alegria alheia que hoje amarga

Dou corda a este velho relógio de parede
pesa-me o braço que levanto
do peso de outros tempos que desperto

E um fantasma lá dos fundos do quadrante
sorri-me com tristeza e diz É tarde
talvez já seja muito tarde

Mário Dionísio, "O silêncio Voluntário"