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sábado, 6 de abril de 2019

António Gedeão: Gota de água

           





               Eu, quando choro,
                não choro eu.
                Chora aquilo que nos homens
                em todo o tempo sofreu.
                As lágrimas são as minhas
                mas o choro não é meu.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Liberdade...


Os cavalos


Dantes eram livres.
Agora, aperreados,
pastam pelos prados
como por favor.




 Já lhes não dão nada 
que não seja dado.
Mas nem se apercebem...
Feliz a ignorância
que lhes adoça o pasto! 

Poema de Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança
*** Imagens colhidas na net .


domingo, 24 de março de 2019

"Epígrafe"


A sala do castelo é deserta e espelhada. 

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?... 
Aqui tudo já foi... Em sombra estilizada, 
A cor morreu - e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina...
Um som opaco me dilui em Rei...

Mário de Sá -Carneiro, in Poesias

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Palavras e silêncio...


O silêncio é a minha maior tentação.

(...)
 As palavras, esse vício ocidental, 
estão gastas. envelhecidas, envilecidas.
 Fatigam, exasperam.
E mentem, separam,  ferem.  


 Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! 


 Por cada palavra que chega até nós,
 ainda quente das entranhas do ser, 
quanta baba nos escorre em cima
 a fingir de música suprema!





 A plenitude do silêncio
 só os orientais a conhecem!
 Lao Tsé ensinou
 que quem sabe não fala
 e quem fala não sabe.(...)

Eugénio de Andrade, in Poesia e Prosa: Rosto Precário

*** Formatação da responsabilidade de Msilva.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Antevendo uma morte anunciada...


[19-11-1935] 

Há doenças piores do que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhada mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

N.B: Talvez um dos últimos poemas datados de Pessoa ortónimo. Daí a poucos dias - 30 de Novembro - veio a falecer, queixando-se à irmã que não via  e pedindo os óculos.

sábado, 24 de novembro de 2018

Fatal o Inverno na vida...

[...]
Que são para mim as doenças que tenho  e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.


Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito  de exigir ao Mundo 
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Fernando Pessoa, 1917 (in Poemas Completos de Alberto Caeiro)

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Bebendo horizontes...


Eu? -- bebo o horizonte...
(Cecília Meireles, in Mar Absoluto)


Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.


Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados 
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

(Fernando Pessoa, in Poemas Completos de  Álvaro de Campos)

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Gastar a vida...


Gastou-se o amor e a ira
fugidos no tempo
de precoce abandono.
e no esquecimento.
nem a crueldade pura do sol
nem a transparência livre da água
catarsificou o sentimento...
tudo rodou, rodopiou ao vento.

Correu, girou, calou...

Foi assim... gastou-se no momento
... e passou.


Maria - (25/03/1993)


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Irritações de um engenheiro...

Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjectiva! 
Qual "leva ao mar"! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar 
A sombra de um jumento. A vida viva 
Vive a dar nomes ao que não se ativa, 
Morre a pôr etiquetas ao grande ar...
Arte com sucata

Escancarado Furness*, mais três dias
Te aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibilíssimas vistorias... 
E. Munch - Auto-retrato com cigarro aceso

Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu irás do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...


Soneto III in Barrow-on- Furness, última parte de " Ficções do Interlúdio"- Poemas de Álvaro de Campos,
 heterónimo de F. Pessoa


Furness* - Barrow-on-Furness, hoje cidade situada a norte de Inglaterra. Era uma aldeia pertencente ao condado de Cúmbria onde se desenvolvia então a indústria da construção de navios e onde, supostamente, o engenheiro naval Álvaro de Campos trabalharia.



sábado, 11 de fevereiro de 2017

Círculos de violência - o silêncio




hoje a fria razão veio ao meu encontro
e vi profunda tristeza em seu olhar
aconcheguei-a contra mim suavemente
beijei-lhe com doçura a fronte pura
mantive o silêncio e pronto o sorriso
num desejo profundo de a acalentar

depois vacilei para encontrar o rumo
que nada tivesse com o verbo amar
e a intenção diluiu-se em fumo
- algo insistia em o fazer lembrar.

um soluço ficou preso na garganta
escondido o rosto a  disfarçar

... era lâmina que cortava a carne
 rasgava a alma
 num holocausto feroz de tradição milenar

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Clepsidra


Epígrafe

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
lentas gotas de som no relógio da torre,
fio de areia na ampulheta vigilante,
leve sombra azulando a pedra do quadrante,
 - assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?  
Procuremos somente a Beleza, que a Vida
é um punhado infantil de areia ressequida,
um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...


Eugénio de Castro (1869-1944)

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Terra bravia...


Bravia é esta terra
                    onde os homens se assemelham
         aos troncos das árvores.

                         Comunicam a seiva ao que os outros
           hão-de colher. E enrugam.

Bravia é esta terra
                         onde a esperança tem longos olhos
           postos no dia de amanhã.

                    Sonha-se com uma boa vindima
                               e o céu no termo dos dias. Pouco mais.

Bravia é esta terra 
                          onde o suor e o sonho dão as mãos.

                      
                 
                           António Cabral, Os homens cantam a nordeste



terça-feira, 2 de julho de 2013

Desconcerto...


Tive o jeito de rir, quando menino, 
Até beber as lágrimas choradas 
Com carantonhas, gestos, desatinos,
Passou a nuvem e os pequenos nadas.

A rir de escuridões, de encruzilhadas,
Tornei-me afeito logo em pequenino;
Porque ri é que trago as mãos geladas,
E choro porque ri do meu destino.

Vivi de mais um mundo idealizado
Comigo só. E só de mim descreio.
Entornava-me riso a luz em cheio

Quando o meu mundo foi principiado;
Rio agora que não sei donde me veio
Sempre o mal que me trouxe o bem sonhado.

Afonso Duarte, Ossadas

quarta-feira, 26 de junho de 2013

"Barataria"...


«1º de Junho - 1880
[...] Isto aqui está absolutamente podre, ridículo. estúpido. Fujo de ler jornais e de falar com pessoas que os lêem, para me esquecer de que vivo nesta capital da Barataria. Como Lisboa seria linda se fosse uma simples cidade de província! Mas estes ares de corte, estes políticos, estes burocratas estragam e maculam os mais belos dons da natureza! 
                                                                [...]   
                                                                                                        Anthero»

 Carta de Antero de Quental a Alberto Sampaio (excerto)



sábado, 22 de junho de 2013

Folha Caída...


- Que fazes tu por aqui,
Triste folha despegada?
- « O vento numa rajada
Arrancou de uma chapada
O carvalho onde nasci;
Desde então, seguindo o vento
Na carreira desigual,
Percorro a cada momento
Bosque, várzea, monte, vale;
E ando neste movimento 
Sem receio e sem desdouro;
Vou na onda caudalosa
Que leva a folha de rosa... 
E leva a folha de louro! »

ARNAUD

                                                                                     João de Deus, in  Campo de Flores

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Caridade...


- Que lhe sugere a palavra caridade?

- É uma palavra que me não lembro de ter escrito fosse onde fosse - porque as palavras significam, não é verdade? Na noite espessa da nossa aflição, elas são música e silêncio do próprio desejo, nossa única pátria. Mas são também a pedra infinitamente morta sobre o coração de tanta criatura. Caridade é uma palavra de flancos frios e águas estanques. Conduz sem grandes desvios ao mundo pantanoso e pervertido da repressão, onde a consciência que se diz virtuosa mais não faz que servi-lo, desinteressada como está em que a potencialidade humana se afirme em todo o seu esplendor. Se os dias todos que nos restam na terra já não chegam para chorarmos a sistemática amputação do homem, um tal vocábulo, aliado como anda sempre às formas mais estremes de reaccionarismo, não pode deixar de suscitar indignação e revolta. Por muito puras que sejam algumas almas evangélicas, parece-me que mais não conseguem que tapar Ariel e Caliban com a mesma manta rota. Mas eu suspeito que há ainda quem use a caridade como sedativo, ou simplesmente como investimento: o mundo do capital não podia perder a ocasião, ao proteger os seus pobres, de investir neles «a salvação da alma». Porque também esta gente aspira à eternidade!

Eugénio de Andrade, in Rosto Precário

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Mutação

Alguma coisa em nós se dissolveu
de quanto desejáramos ficasse.
Indago-me. É a mesma, a minha face.
Como é possível ter mudado eu?

Como é possível ter mudado tanto
a minha antiga voz de namorado?
São rasos de água os olhos que levanto.
Como é possível tanto ter mudado?

Já não consigo ver-te como outrora,
frágil, confiada, trémula, hesitante...
Que estranha força te mandou embora?
Que força imensa te mantém distante?


A nossa casa entanto continua
aberta. par em par, ao claro dia.
Vou à janela e vejo a mesma rua,
o mesmo céu, a mesma nuvem nua,
a mesma gente ingénua, fugidia..
.
 Que foi?, tu não me dizes?, que razão,
dentro de nós, em sua voz, desfere
como num disco gasto: «O mundo é vão!»?

- Cheia de humana angústia, a minha mão
comprime-se na tua, sem saber.

António Luís Moita, Teoria do Girassol

terça-feira, 6 de setembro de 2011

«Como é natural»

Vão longe os anos de intermezzo
quando a brisa indolente passeava
doce esperança à flor dos lábios mudos

Se uma folha caía se um rumor
brando acordava o silêncio mal represo
quanto alarme no ar de flores coberto

Vão longe os tempos de alvoroço
de fronteira a fronteira imaginária
rara aventura agora impessoal
uma alegria alheia que hoje amarga

Dou corda a este velho relógio de parede
pesa-me o braço que levanto
do peso de outros tempos que desperto

E um fantasma lá dos fundos do quadrante
sorri-me com tristeza e diz É tarde
talvez já seja muito tarde

Mário Dionísio, "O silêncio Voluntário"

sábado, 4 de junho de 2011

«Lasso, triste...»


Lasso, triste, venho
do silêncio em mim.
Que escuro o caminho!
Que longe do fim!

Indeciso ainda
como um cristal baço;
mas que fome existe
já no meu cansaço!

Olho-me por dentro:
que frio, sozinho!
Aqueço-me ao fogo
do comum destino.

João José Cochofel, Os Dias Íntimos