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sábado, 6 de abril de 2019
quarta-feira, 27 de março de 2019
domingo, 24 de março de 2019
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
Palavras e silêncio...
O silêncio é a minha maior tentação.
(...)
As palavras, esse vício ocidental,
estão gastas. envelhecidas, envilecidas.
Fatigam, exasperam.
E mentem, separam, ferem.
Também apaziguam, é certo, mas é tão raro!
Por cada palavra que chega até nós,
ainda quente das entranhas do ser,
quanta baba nos escorre em cima
a fingir de música suprema!
A plenitude do silêncio
só os orientais a conhecem!
Lao Tsé ensinou
que quem sabe não fala
e quem fala não sabe.(...)
Eugénio de Andrade, in Poesia e Prosa: Rosto Precário
*** Formatação da responsabilidade de Msilva.
sábado, 1 de dezembro de 2018
Antevendo uma morte anunciada...
[19-11-1935]
Há doenças piores do que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhada mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.
Fernando Pessoa, in Cancioneiro
N.B: Talvez um dos últimos poemas datados de Pessoa ortónimo. Daí a poucos dias - 30 de Novembro - veio a falecer, queixando-se à irmã que não via e pedindo os óculos.
sábado, 24 de novembro de 2018
Fatal o Inverno na vida...
[...]
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir ao Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.
Fernando Pessoa, 1917 (in Poemas Completos de Alberto Caeiro)
quarta-feira, 21 de novembro de 2018
Bebendo horizontes...
Eu? -- bebo o horizonte...
(Cecília Meireles, in Mar Absoluto)
Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.
(Fernando Pessoa, in Poemas Completos de Álvaro de Campos)
Etiquetas:
desencanto,
desencontro,
filosofia,
Sentir,
ser
sexta-feira, 16 de novembro de 2018
segunda-feira, 23 de julho de 2018
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
Irritações de um engenheiro...
Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjectiva!
Qual "leva ao mar"! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar
A sombra de um jumento. A vida viva
Vive a dar nomes ao que não se ativa,
Morre a pôr etiquetas ao grande ar...
Arte com sucata
Escancarado Furness*, mais três dias
Te aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibilíssimas vistorias...
E. Munch - Auto-retrato com cigarro aceso
Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu irás do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...
Soneto III in Barrow-on- Furness, última parte de " Ficções do Interlúdio"- Poemas de Álvaro de Campos,
heterónimo de F. Pessoa
Furness* - Barrow-on-Furness, hoje cidade situada a norte de Inglaterra. Era uma aldeia pertencente ao condado de Cúmbria onde se desenvolvia então a indústria da construção de navios e onde, supostamente, o engenheiro naval Álvaro de Campos trabalharia.
sábado, 11 de fevereiro de 2017
Círculos de violência - o silêncio
hoje a fria razão veio ao meu encontro
e vi profunda tristeza em seu olhar
aconcheguei-a contra mim suavemente
beijei-lhe com doçura a fronte pura
mantive o silêncio e pronto o sorriso
num desejo profundo de a acalentar
depois vacilei para encontrar o rumo
que nada tivesse com o verbo amar
e a intenção diluiu-se em fumo
- algo insistia em o fazer lembrar.
um soluço ficou preso na garganta
escondido o rosto a disfarçar
... era lâmina que cortava a carne
rasgava a alma
num holocausto feroz de tradição milenar
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Clepsidra
Epígrafe
Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
lentas gotas de som no relógio da torre,
fio de areia na ampulheta vigilante,
leve sombra azulando a pedra do quadrante,
- assim se escoa a hora, assim se vive e morre...
Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a Vida
é um punhado infantil de areia ressequida,
um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...
Eugénio de Castro (1869-1944)
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Terra bravia...
Bravia é esta terra
onde os homens se assemelham
aos troncos das árvores.
Comunicam a seiva ao que os outros
hão-de colher. E enrugam.
Bravia é esta terra
onde a esperança tem longos olhos
postos no dia de amanhã.
Sonha-se com uma boa vindima
e o céu no termo dos dias. Pouco mais.
Bravia é esta terra
onde o suor e o sonho dão as mãos.
António Cabral, Os homens cantam a nordeste
terça-feira, 2 de julho de 2013
Desconcerto...
Tive o jeito de rir, quando menino,
Até beber as lágrimas choradas
Com carantonhas, gestos, desatinos,
Passou a nuvem e os pequenos nadas.
A rir de escuridões, de encruzilhadas,
Tornei-me afeito logo em pequenino;
Porque ri é que trago as mãos geladas,
E choro porque ri do meu destino.
Vivi de mais um mundo idealizado
Comigo só. E só de mim descreio.
Entornava-me riso a luz em cheio
Quando o meu mundo foi principiado;
Rio agora que não sei donde me veio
Sempre o mal que me trouxe o bem sonhado.
Afonso Duarte, Ossadas
quarta-feira, 26 de junho de 2013
"Barataria"...
«1º de Junho - 1880
[...] Isto aqui está absolutamente podre, ridículo. estúpido. Fujo de ler jornais e de falar com pessoas que os lêem, para me esquecer de que vivo nesta capital da Barataria. Como Lisboa seria linda se fosse uma simples cidade de província! Mas estes ares de corte, estes políticos, estes burocratas estragam e maculam os mais belos dons da natureza!
[...]
Anthero»
Carta de Antero de Quental a Alberto Sampaio (excerto)
sábado, 22 de junho de 2013
Folha Caída...
- Que fazes tu por aqui,
Triste folha despegada?
- « O vento numa rajada
Arrancou de uma chapada
O carvalho onde nasci;
Desde então, seguindo o vento
Na carreira desigual,
Percorro a cada momento
Bosque, várzea, monte, vale;
E ando neste movimento
Sem receio e sem desdouro;
Vou na onda caudalosa
Que leva a folha de rosa...
E leva a folha de louro! »
ARNAUD
João de Deus, in Campo de Flores
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Caridade...
- Que lhe sugere a palavra caridade?
- É uma palavra que me não lembro de ter escrito fosse onde fosse - porque as palavras significam, não é verdade? Na noite espessa da nossa aflição, elas são música e silêncio do próprio desejo, nossa única pátria. Mas são também a pedra infinitamente morta sobre o coração de tanta criatura. Caridade é uma palavra de flancos frios e águas estanques. Conduz sem grandes desvios ao mundo pantanoso e pervertido da repressão, onde a consciência que se diz virtuosa mais não faz que servi-lo, desinteressada como está em que a potencialidade humana se afirme em todo o seu esplendor. Se os dias todos que nos restam na terra já não chegam para chorarmos a sistemática amputação do homem, um tal vocábulo, aliado como anda sempre às formas mais estremes de reaccionarismo, não pode deixar de suscitar indignação e revolta. Por muito puras que sejam algumas almas evangélicas, parece-me que mais não conseguem que tapar Ariel e Caliban com a mesma manta rota. Mas eu suspeito que há ainda quem use a caridade como sedativo, ou simplesmente como investimento: o mundo do capital não podia perder a ocasião, ao proteger os seus pobres, de investir neles «a salvação da alma». Porque também esta gente aspira à eternidade!
Eugénio de Andrade, in Rosto Precário
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Mutação
Alguma coisa em nós se dissolveu
de quanto desejáramos ficasse.
Indago-me. É a mesma, a minha face.
Como é possível ter mudado eu?
Como é possível ter mudado tanto
a minha antiga voz de namorado?
São rasos de água os olhos que levanto.
Como é possível tanto ter mudado?
Já não consigo ver-te como outrora,
frágil, confiada, trémula, hesitante...
Que estranha força te mandou embora?
Que força imensa te mantém distante?
A nossa casa entanto continua
aberta. par em par, ao claro dia.
Vou à janela e vejo a mesma rua,
o mesmo céu, a mesma nuvem nua,
a mesma gente ingénua, fugidia..
.
Que foi?, tu não me dizes?, que razão,
dentro de nós, em sua voz, desfere
como num disco gasto: «O mundo é vão!»?
- Cheia de humana angústia, a minha mão
comprime-se na tua, sem saber.
António Luís Moita, Teoria do Girassol
terça-feira, 6 de setembro de 2011
«Como é natural»

Vão longe os anos de intermezzo
quando a brisa indolente passeava
doce esperança à flor dos lábios mudos
Se uma folha caía se um rumor
brando acordava o silêncio mal represo
quanto alarme no ar de flores coberto
Vão longe os tempos de alvoroço
de fronteira a fronteira imaginária
rara aventura agora impessoal
uma alegria alheia que hoje amarga
Dou corda a este velho relógio de parede
pesa-me o braço que levanto
do peso de outros tempos que desperto
E um fantasma lá dos fundos do quadrante
sorri-me com tristeza e diz É tarde
talvez já seja muito tarde
Mário Dionísio, "O silêncio Voluntário"
sábado, 4 de junho de 2011
«Lasso, triste...»
Lasso, triste, venho
do silêncio em mim.
Que escuro o caminho!
Que longe do fim!
Indeciso ainda
como um cristal baço;
mas que fome existe
já no meu cansaço!
Olho-me por dentro:
que frio, sozinho!
Aqueço-me ao fogo
do comum destino.
João José Cochofel, Os Dias Íntimos
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