quarta-feira, 2 de maio de 2012

"Recato"



Coimbra, 17 de Novembro de 1984
Lê.
Mas decifra.
Com a razão
E o coração.
Versos que nem eu quero que o pareçam,
De tão negros que são.
Todo o poema é um teste
Que põe à prova a inquietação
De quem nele se aventura.
Este 
Que te proponho a horas mortas,
e é um tronco de tortura
Penitente,
Abre-te cautamente
As portas
De uma pungente
Dor envergonhada,
Assim veladamente
Soluçada.

Miguel Torga,  Diário XVI