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quarta-feira, 10 de julho de 2019

Valsa das rosas - Russian State Symphonic Orchestra














 Rosas...flores de verão,
 ébrias de calor,
 fragilizadas sob o sol abrasador
 que lhes cresta as pétalas
 ao beijá-las 
com devoção e fervor...
...fremente de emoção,
num murmuro labor,
sussurro baixo, de mansinho:
...são para ti, meu senhor...



quinta-feira, 18 de abril de 2019

Nossa Senhora de Paris...

...no ideário poético de Mário de Sá-Carneiro 
[1890-1916]

Listas de som avançam  avançam para mim a fustigar-me 
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz.
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...

Catedral de Notre-Dame - à noite

Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa a Mar...
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos...
Mas o oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais...
Fico sepulto sob círios
Escureço-me em delírios
Mas ressurjo de Ideais...

- Os meus sentidos a escoarem-se...
Altares e velas...
Orgulho... Estrelas...
Vitrais! Vitrais! 
Vitral - Notre-Dame
Flores de Lis...

Manchas de cor a ogivarem-se...
As grandes naves a sagrarem-se...
_ Nossa Senhora de Paris!...

(in Poesias de Mário de Sá-Carneiro)

domingo, 24 de março de 2019

"Epígrafe"


A sala do castelo é deserta e espelhada. 

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?... 
Aqui tudo já foi... Em sombra estilizada, 
A cor morreu - e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina...
Um som opaco me dilui em Rei...

Mário de Sá -Carneiro, in Poesias

quinta-feira, 14 de março de 2019

"Vontade de dormir"...


Fios de oiro puxam por mim
A soerguer-me na poeira --
Cada um para o seu fim,
Cada um para o seu norte...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
-- Ai que saudades da morte...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Quero dormir... ancorar... 
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Arranquem-me esta grandeza! 
-- Para que me sonha a beleza, 
Se a não posso transmigrar?

in  Poesias de Mário de Sá- Carneiro


sábado, 2 de março de 2019

II - Tu não és...

Introdução:

Ler poetas, apreciar quadros ou outros aspectos de arte traz grandes surpresas ou belas experiências. 
A leitura de Bernardo Soares trouxe-me a compreensão da estranha vida do autor Pessoa, absolutamente invadida pela procura incessante do artista na busca da perfeição, e do escalpelo que utilizou em si-mesmo para compreender racionalmente emoções sentidas. 
A razão de me servir de alguns destes textos, foi tentativa de consciencializar outrem para a emoção por mim sentida ao descobri-los e descodificá-los, mas sem lhes apor filosofias complexas ou doutrinas linguísticas estranhas. 
Porque Pessoa só aparentemente é simples, mas também não é tão complicado quanto muitos o quiseram , ou querem, fazer parecer. 


[...]
« Lua de memórias perdidas sobre a negra paisagem, nítida de vazio[?], da minha imperfeição compreendendo-se. O meu ser sente-se vazante como se fosse um cinto teu que te sentisse. Debruço-me sobre o teu rosto branco nas águas nocturnas do meu desassossego, no meu saber que és lua no meu céu para que o causes, ou estranha lua submarina para que, não sei como, o finjas.
Quem pudesse criar o Novo Olhar com que te visse, os Novos Pensamentos e Sentimentos que houvessem de te poder pensar e sentir! 
Ao querer tocar no teu manto as minhas expressões cansam o esforço estendido dos gestos de suas mãos, e um cansaço rígido e doloroso gela-se nas minhas palavras. Por isso, curva um voo de ave que parece que se aproxima e nunca chega, em torno ao que eu quereria dizer de ti, mas a matéria das minhas frases não sabe imitar a substância ou do som dos teus passos, ou do rasto dos teus olhares, ou da cor triste e vazia da curva dos gestos que não fizeste nunca.»

*

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

[...]

Comentando:
Raramente há uma mulher real na obra de um artista, mas muitas, ou a sucessão de muitas, que se plasmam numa única quando a/as evoca. No caso de Pessoa, poeta lúcido e profundamente sensível, a mulher podia ser a prefiguração da beleza ...o que era tudo e era nada. Mas era sempre tudo no universo lírico do artista e nada como representação carnal, a não ser em traços eróticos, como surge em alguns dos seus sonetos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Do escrúpulo...

[...]

O escrúpulo é a morte da acção. Pensar na sensibilidade alheia é estar certo de não agir. Não há acção, por pequena que seja - e quanto mais importante mais isso é certo - que não fira outra alma, que não magoe alguém, que não contenha elementos de que, se tivermos coração, nos não tenhamos de arrepender. Muitas vezes tenho pensado que a filosofia real do eremita estará antes no esquivar-se  a ser hostil, pelo simples facto de viver, do que em qualquer pensamento directamente relacionado com o isolar-se.
[...]
Fernando Pessoa, in Barão de Teive, A Educação do Estóico

domingo, 24 de fevereiro de 2019

O verdadeiro uso da razão




A dignidade da inteligência está em reconhecer, com desgosto próprio ou não que as leis naturais se não vergam aos nossos desejos, que o mundo existe independentemente da nossa vontade, que o sermos tristes nada prova sobre o estado moral dos astros, ou até do povo que passa pelas nossas janelas: nisto está o vero uso da razão e a dignidade racional da alma.

Fernando Pessoa [Barão de Teive]- in A Educação do Estóico


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Sugestão...

[Paris, Agosto de 1914]
As companheiras que não tive, 
Sinto-as chorar por mim, veladas, 
Ao pôr-do-Sol, pelos jardins...
Na sua mágoa azul revive 
A minha dor de mãos finadas 
Sobre cetins...

Mário de Sá-Carneiro, in  no lado esquerdo da alma

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Alma ... ânsia de perfeição



[...]
O escrúpulo da precisão, a intensidade do esforço de ser perfeito - longe de serem estímulos para agir, são faculdades íntimas para o abandono. Mais vale sonhar que ser. É tão fácil ver tudo conseguido no sonho!

Mil ideias juntas, cada uma um poema, que cresciam inúteis.  De tantas nem me podia lembrar quando as tinha, quanto mais quando as já perdera.

As pequenas emoções ficaram. Uma brisa num trecho calmo do campo parece que me transe a alma. Uma rajada longínqua da música da filarmónica da alameda evoca-me sonoridades para além dos efeitos de todas as sinfonias. Numa velhinha a uma porta enternece-me a bondade toda. Uma criança suja, parada à minha frente, ilumina-me. Gozo o pousar de um pardal no cabo, e isto passa de mim, como uma visão indestrinçável da própria verdade.

Fernando Pessoa,  in A Educação do Estóico -  Barão de Teive

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Distante Melodia...


Num sonho de Ìris morto a ouro e brasa,
Vem-me lembranças doutro Tempo azul
Que me oscilava entre véus de tule -
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa. 
(...)
(...)
Lembranças fluídas... Cinza de brocado... 
Irrealidade anil que em mim ondeia...  
- Ao meu redor eu sou Rei exilado, 
Vagabundo dum sonho de sereia... 

Paris, 30 de Junho de 1914


Mário de Sá Carneiro, in no lado esquerdo da alma

sábado, 19 de janeiro de 2019

Noite e solidão


Quero uma solidão, quero um silêncio,
uma noite de abismo e a alma inconsútil,
para esquecer que vivo - libertar-me

das paredes , de tudo o que aprisiona;
atravessar demoras, vencer tempos
pululantes de enredos e tropeços

quebrar limites, extinguir murmúrios,
deixar cair as frívolas colunas
de alegorias, vagamente erguidas.

Ser tua sombra, tua sombra apenas,
e estar vendo e sonhando à tua sombra
a existência do amor ressuscitado.
Falar contigo [só] pelo deserto.

Cecília Meireles

sábado, 24 de novembro de 2018

Fatal o Inverno na vida...

[...]
Que são para mim as doenças que tenho  e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.


Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito  de exigir ao Mundo 
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Fernando Pessoa, 1917 (in Poemas Completos de Alberto Caeiro)

terça-feira, 3 de abril de 2018

João Villaret - O Mostrengo de Fernando Pessoa



Quantos mostrengos nos rodeiam cada dia!...
Há que saber conseguir a coragem de enfrentá-los até ao último dia em que já nem nos interesse combatê-los!...

domingo, 17 de dezembro de 2017

Noite em melodia...


Noite perdida,
não te lamento:
embarco a vida

no pensamento,
busco a alvorada
do sonho isento,

puro e sem nada,
- rosa encarnada,
intacta, ao vento.




Noite perdida,
noite encontrada,
morta, vivida,

e ressuscitada...
Asa da lua
quase parada,

mostra-me a sua
sombra escondida, 
que continua

a minha vida
num chão profundo!
- raiz prendida

a um outro mundo.
Rosa encarnada
do sonho isento,


muda alvorada
que o pensamento
deixa confiada

ao tempo lento...
Minha partida,
minha chegada,

é tudo vento...


Ai da alvorada!
Noite perdida,
noite  encontrada...

Cecília Meireles - "Música"...

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

«Chove?»...


Chove? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia 
Em que o ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia?


Onde é que chove que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
 Ó céu azul, chamar-te meu...

E o escuro ruído da chuva 
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

Foto Rick Forrestal

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... e a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuto, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...

Quando é que eu serei da tua cor,
Do teu plácido e azul encanto,
Ó claro dia exterior, 
Ó céu mais útil que o meu pranto?

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Irritações de um engenheiro...

Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjectiva! 
Qual "leva ao mar"! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar 
A sombra de um jumento. A vida viva 
Vive a dar nomes ao que não se ativa, 
Morre a pôr etiquetas ao grande ar...
Arte com sucata

Escancarado Furness*, mais três dias
Te aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibilíssimas vistorias... 
E. Munch - Auto-retrato com cigarro aceso

Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu irás do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...


Soneto III in Barrow-on- Furness, última parte de " Ficções do Interlúdio"- Poemas de Álvaro de Campos,
 heterónimo de F. Pessoa


Furness* - Barrow-on-Furness, hoje cidade situada a norte de Inglaterra. Era uma aldeia pertencente ao condado de Cúmbria onde se desenvolvia então a indústria da construção de navios e onde, supostamente, o engenheiro naval Álvaro de Campos trabalharia.



sábado, 19 de agosto de 2017

"Ausência"...


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo. 
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.


E sinto-a, branca, tão pegada,
Aconchegada nos meus braços,
Que rio, danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência, essa ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.



Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 31 de março de 2014

Cleópatra


Sentava o seu Passado nos joelhos.
Tentava-o acordar. E os seus cabelos
Vinham prender-lhe os dedos. Pra contê-los
Espalhava-os a medo nos espelhos.

Às vezes ao penteá-los desprendia-os.
E anoitecia-os entre jóias caras.
Apertava-os nas mãos, por fim prendia-os
Em vez de fitas com serpentes raras.

Mordia lírios pra aromar a Alma.
Inquieto olhar. Um inclinar de palma
A sombra de seus olhos encobria.

Longos dedos, rebanhos sem pastores.
Então suas palavras eram cores
E arco-íris os ecos que perdia.

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

quinta-feira, 27 de março de 2014

Elogio da Distância...


Sou distância de mim sobre os outeiros.
Distância, um cisne entre lagoas idas,
Um afago de mãos desconhecidas.
Mãos crispadas cerrando reposteiros.

Distância, nos meus olhos, é um seio
Que amamentou outras Paisagens mortas,
É o eterno ser no meu receio,
É o fechar contínuo de áureas portas.

Diante de mim essa distância existe,
Eternamente longe e sempre triste,
Doida toada que em penumbras fito.

É um descer de bronzes no meu medo,
É uma curva de Ânsia no arvoredo,
Um gotejar de cinza no infinito.


Alfredo Guisado (1891)

sexta-feira, 7 de março de 2014

O último adeus de um combatente


Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que eu parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!

Vasco Cabral
Guiné- Bissau