segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Contrariedades...


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

[...]

A adulação repugna os sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais, exactos,
Os meus alexandrinos.

[...]

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se o réclame, a intriga, o anúncio, a blague
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

Cesário Verde - Porto, 18 de Março de 1876