quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Loucura


(...)


Tudo estava mal.


Quando uma ideia fixa se apodera de um cérebro doente, só a custo perderá a sua fixidez. Era nisso que eu devia ter pensado.


Se Raul se mostrava esquecido das suas manias, despreocupado e jovial, era precisamente porque, mais do que nunca, se deixara apossar por elas. Provam-no as suas notas diárias que nesta época abundam: bizarras, nebulosas, indecifráveis na maioria. Uma página extracto para aqui, textualmente:


Lisboa . dez. 30-09-905 - 24. madrugada. Durmo, julga ela...Não durmo. Escrevo. Não posso dormir. Ela dorme. É feliz? Sei lá...



A Vida...Ao inventá-la, a Natureza Deus, o Criador, se preferem - lutou com a maior das dificuldades. Não a resolveu. Oh! não...não...

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Como se forma o indivíduo? Com o prazer...Fabricar vida é uma necessidade... deliciosa, viciosa, portanto. A Natureza compreendeu que ninguém faria vida se não fosse por interesse...para gozar...E faz-se vida só por isso...por isso só...

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Era difícil, complicada a empresa; tão complicada que Deus não a pôde simplificar...Não pôde...nem soube. O filho, quando nasce, martiriza, tortura a mãe...mata-a muitas vezes...e não ri ao chegar ao mundo...Não ri...chora...grita...

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Eu vivo. Nunca fiz vida. Fui mais sensato, gozei apenas...

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Procriar é uma malvadez: é fazer desgraçados. É um crime matar, preceituam as leis. Crime muito maior é formar assassinos.

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O filho devia amaldiçoar os pais. Foram eles que o condenaram *a existência...ao suplício eterno...

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Só há uma coisa pior do que a vida: é a morte.

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Se a humanidade fosse inteligente, se porfiasse, acabaria com os homens. Ventura suprema! Suprema superioridade! Demonstraria que tinha mais força do que o Criador: destruiria a sua obra infame.
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Mas ninguém quer domar os sentidos; com os sentidos, ninguém quer ser hipócrita...

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Se a humanidade fosse inteligente, se porfiasse, acabaria com os homens. Ventura suprema! Suprema superiorida! Demonstraria que tinha mais força do que o Criador: destruiria a sua obra infame.



Mas ninguém quer domar os sentidos; com os sentidos, ninguém quer ser hipócrita...

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A morte era a recompensa da vida. Os homens que estragam tudo, estragaram também essa recompensa: inventaram a alma, o inferno e o céu.

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Só se compreende o compreensível. O Universo é incompreensível para os homens. Por isso antes o admiram, pasmam alvarmente diante dessa chocha "maravilha"...

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A vida faz doer. E a morte?

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O amor, hei-de prová-lo. É sublime, não admite dúvidas. Elevar-me-ei acima de todos. Um génio? Um doido... um criminoso!!! Ah!...Ah!...

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Daqui a pouco tempo. A maior prova de amor... a maior prova de amor...

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Se eu não fosse um homem...ai! Se eu não fosse um homem...


Estas linhas trasladei-as, só para exemplificação. O sentido é obscuro; a disposição incoerente, desordenada; tudo cheio de rasuras e de borrões. As referências à maior prova de amor" abundam nas outras páginas, em frases cada vez mais embrulhadas.

(...)

Mário de Sá-Carneiro, Loucura...