Escreveu, por volta de 1916, Fernando Pessoa o seguinte texto:
Os deuses não morreram;
o que morreu foi a nossa visão deles.
Não se foram: deixámos de os ver.
Ou fechámos os olhos,
ou
entre eles e nós
uma névoa qualquer se entremeteu.
Subsistem,
vivem como viveram,
com a mesma divinidade
e a mesma calma.
Falamos muito,
e com hipocrisia,
no sentimento que temos da beleza antiga,
e das civilizações mães da nossa,
e que foram pagãs.
Mas nós não temos
a alma grega
nem a alma romana.
Amamo-los de perfil,
incorporeamente.
Nada
da alma antiga está em nós
ou connosco.
A nossa ânsia de beleza clássica
é toda cristã
na sua fúria de perfeição,
no seu desassossego.


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