sábado, 24 de outubro de 2009

À beira do lago...


Entre a paisagem, onde a vista pousa,
E o espírito que a vê risonho ou triste,
Mais duma vez tal concordância existe,
Que ver, e ver-se a gente, é uma só cousa.

No lago azul espelha-se uma rosa
E ao lume da minh' alma, onde floriste,
Como na hora em que ante mim surgiste,
Nua Susana, espelhas-te radiosa.

Treme no lago e na alma o mesmo afago...
Mas uma nuvem de cariz aziago
Ensombra, a um tempo, a alma e o lago, inquietos:

E então passam, com tristes semelhanças,
Na minh' alma, negríssimas lembranças,
E, no lago, dois grandes cisnes pretos...

Eugénio de Castro