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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

I - Tu não és...



[...]
Tu não és mulher.(...)É quando falo de ti que as palavras te chamam fêmea, e as expressões te contornam de mulher. Porque tenho de te falar com ternura e amoroso sonho, as palavras encontram voz para isso apenas em te tratar como feminina.
Mas tu, na tua vaga essência não és nada. não tens realidade, nem mesmo uma realidade / só / tua. Propriamente, não te vejo, nem mesmo te sinto.´És como que um sentimento que fosse o teu próprio objecto e pertencesse todo ao íntimo de si-próprio. És sempre a paisagem que eu estive quase para (poder) ver, perdido num eterno Agora para além da curva do caminho. O teu perfil é não seres nada, e o contorno do teu corpo irreal desata em pérolas separadas o colar da ideia de contorno. Já passaste, e já foste, e já te amei - o sentir-te presente é sentir isto.
Ocupas o intervalo dos meus pensamentos e os interstícios das minhas sensações. Por isso eu não te penso nem te sinto, mas os meus pensamentos são / opiais/ de te sentir, e os meus sentimentos góticos (?) de evocar-te.
[...]
Bernardo Soares( heter.  de F. Pessoa), in Livro do Desassossego

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Indeciso entre as rosas da noite...


I
Indeciso entre as rosas e a noite
Seu corpo era uma história por contar.
Lira, abandonou-se em meus cabelos,
Pediu-me um som para poder vibrar.

Dei-lhe a sonoridade pressentida
No mar que às montanhas se recusa.
E soltou-se: ave conseguida
Do sangue de Medusa.

[...]

Natália Correia, in Dimensão Encontrada

sábado, 9 de julho de 2011

Mulher ao Espelho (Séc. XIII)


A beleza não é lugar de perfeição.
Quando te vês ao espelho é a morte
que contemplas na sua chama. Mesmo o sol
que nos teus cabelos tanto aquecia
as mãos daqueles a quem davas o calor
mais íntimo é agora um lugar frio.
Não digas que não és a culpada: a traição
morava contigo, e sempre os homens,
sejam reis ou pastores, foram brutais
no seu desejo, como se amar uma mulher
não fosse o seu desígnio mais fundo
e apenas vingassem nela uma ferida oculta.
Não te escondas para chorar no escuro.
De nada te servem lágrimas agora
nem a lembrança furtiva das noites
abertas à demência, ao vigor, à raiva
de membros que ao rasgar-te a carne
te convertiam em sucessivas vagas
de luminosa sombra prolongadas.
Tu, coroada pelo amor de um rei,
já não despertas mais que piedade,
se tão cruel veneno pode ter um nome.
Estás só na casa imensa. Só e velha.
Escuta, são as pombas que regressam;
um ar fresco do sul varre o balcão,
traz sílabas leves, feitas de memória:
«Muito me tarda o meu amigo, muito me tarda.»
Fecha as portadas. Agora dorme. Dorme.

Eugénio de Andrade, Homenagens e Outros Epitáfios, (1985)


sábado, 14 de maio de 2011

Tortura




Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento...
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração...
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho de um momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que iludo os outros, com que minto.

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!


Florbela Espanca, Sonetos

terça-feira, 10 de maio de 2011

Monólogo



Não faço esforço para te esquecer
Porque seria matar-me
Condenar-me
Ao inferno
Antes de morrer

Serenamente
Sem loucura
Nem sensualidade
Não leias nunca nas palavras soltas
Ausência de SAUDADE

Almas se tocam
Corpos se conhecem
Evoluem com o tempo
Amadurecem
E penetram-se em sabor
Em AMOR
E em verdade.

sábado, 30 de abril de 2011

Envelhecer



Pouca gente sabe envelhecer.
A maioria conta a mocidade através do tempo e os anos pesam como quilos sobre os ombros.
E curvam a face lentamente para a terra, temendo encarar o céu.
Malba Tahan diz, a respeito, o seguinte:

O homem vulgar envelhece com o desfilar dos dias e o amontoar dos anos. Um espírito superior, porém, alheio ao escoar inexorável do tempo, só se sente envelhecer com a perda dos ideais, com o aniquilamento das ilusões e com o abandono dos sonhos.
É jovem aquele cuja coragem excede a timidez. Implanta-se a senectude naquele em que a ânsia de aventura é vencida pelo desânimo e que só ambiciona o viver tranquilo e repousado.
Que importa ter noventa, trinta ou dezassete anos?
Que importa?
És jovem com a tua fé e velho com a tua dúvida.
Meço-te a mocidade pela confiança e esplendor dos teus sonhos.
Avalio e peso a tua ansiedade pelo cepticismo mórbido que te envenena o coração.


Reconheço que envelheci muito de repente... Conservo ideais, mas os sonhos não os acompanham.
E o cepticismo toma dia a dia conta da minha alma onde a última tempestade deixou marcas demasiado fundas.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Dia previsto



Se algum dia
deixares de ser
para mim
o Sol da minha vida
sei que fecharei
os olhos mansamente
sobre lágrimas geladas de pesar
E o meu coração cansado
de repente
deixará de bater
numa agonia
por ter esperado em vão
sem te rever.

domingo, 20 de março de 2011

Orquídeas



Orquídeas altivas são flores de orgulho
Sempre achei.
E são dotadas de formas e cores vistosas
Bem o sei.

Afirmam que duram mais que as rosas
E sei por quê.
Duras se mostram, mais que formosas
E ninguém vê.

Também tristeza ecoa como perfume
E adensa em mim.
E um soluço o vago vagalume
Que poisa no jardim.


M. Vasco

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Violência




Violência... Em tudo houve violência.
Em tudo ela reside
Sempre imbuída numa opção menos doce.
Há violência num silêncio consentido.
E violência no respeitar o teu sentir,
O teu querer,
A tua liberdade
...
E sinto violentar-me o ardor com que te quero.

Sophia Guiomar,in "Poemetos"

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Nosso livro



Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguèm! Só meu. Só teu.
Num sorriso dizes tu e digo eu:
Versos só nossos, mas que lindos sois!

Ah! Meu amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
Versos só nossos, só de nós os dois!...

Florbela Espanca





sábado, 9 de janeiro de 2010

Envelhecer



Achas-me velha? Seja. Há quase um ano
'inda me achavas nova. Estou mudada?
Sucede a noite ao dia, à madrugada...
Quanta certeza nasce dum engano!

Concorda, meu amor. És desumano.
Tenho sofrido tanto! Estou cansada.
Cada ruga é uma lágrima chorada:
Cada cabelo branco, um desengano.

Envelhecer por ti é o meu sofrer.
Tu nunca me soubeste compreender
e nada o meu amor já te merece!

Que outros me achassem velha....
... era ventura!
Mas fosses tu a doce criatura,
- a única - que nunca mo dissesses1

Virgínia Vitorino, Namorados








terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Prenúncio



E quando a Solidão
Não souber onde morar
Tu, meu Amor,
Virás
A me buscar...

Sofia Guiomar, Poemetos 2009-08-02




sábado, 19 de dezembro de 2009

Impressão...



...Pareceu um ser estranho e nobre

Um misto de avidez e ardor
Num mundo de silêncio
Em que o amor e a dor
Não lhe diziam nada...

Só não sei se era assim...
O perfume a jasmim
Na manhã de marfim
Achou-me apaixonada.
...
...E a noite calada magoada
Sentiu-te assim
E muito falou
E chorou
Pois só gostou
de ti!


Sophia Guiomar, [19-04-2009]-[02-08-2009]














segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Perseguir


Persigo o teu rasto, a tua imagem,
o muito e o pouco que de ti conheço
sem nunca ter certeza se és mesmo tu
ou a ideia que de ti fiz e faço.
Incessantemente te sigo nesse espaço
tentando acalmar o amor que te consagro
sedenta desse algo estranho e muito teu
que resta na esteira de teus passos.
Nunca senti os típicos cansaços
de perseguir apenas a ilusão
porque, afinal, ao sol de cada dia
foram criados profundos laços
de um encantamento
pleno de ternura e alegria.
Bem hajas, amor, pela primavera
que provocou em mim essa quimera
de viver a ilusão de não estar só.

Sophia Guiomar, 2009




sábado, 21 de novembro de 2009

Segredo

Tenho na alma um segredo, um mistério na vida,
Uma eterna paixão nascida num momento;
Dor funda e sem remédio, trago-a recolhida
E quem ma provocou não me ouve um só lamento.

Serei sempre ao seu lado e ela, desprevenida,
Far-me-á sentir maior o meu isolamento.
E morrerei por fim - que existência perdida! -
Sem nada ter perdido e sem contentamento.

E se o Senhor a fez modesta, meiga e doce
É como se afinal bem cega e surda fosse,
Pois não dá pelo amor que a segue onde ela vá.

Ligada ao seu dever, rigorosa e singela,
Perguntará lendo estes versos cheios d' ela:
- Quem é esta mulher? ...E não perceberá.

Félix d' Arvers





sábado, 14 de novembro de 2009

Canção de vida


Não te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!
Aparece-me agora que ainda reconheço
a anémona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...

Cecília Meireles







terça-feira, 10 de novembro de 2009

Rosa desditosa



- Tive centos e centos de irmãs mais belas,
Pois neste doce Abril fomos cardume,
Mas eu, p'la rara cor e p'lo perfume,
Sem vaidade, era a mais formosa delas.

Brancas, róseas, vermelhas e amarelas,
Umas feitas de neve, outras de lume,
Colhidas todas foram. Sem queixume,
Desejei-lhes benéficas estrelas.

A mim, ninguém me quis! E, folha a folha,
Já me desflora o zéfiro traiçoeiro,
A mim, virgem, que amar quisera ainda...

Anda ceguinho o Amor na sua escolha.
E abrindo os braços à que vê primeiro
Muitas vezes não vê a que é mais linda.

Eugénio de Castro



segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Mulher, mãe e amante



Mulher é sempre aquela que redime
Fraquezas que uma falta em si contém.
Que, sendo boa esposa, é boa mãe
E sabe ser na dor grande e sublime.

É a que no silêncio tudo exprime...
E, digna, sofre e cala o que convém...
Que avante passa à afronta e ao desdém,
Guardando num segredo o que a oprime.

Farrapo muitas vezes que se prende
A uma afeição livre e sacrossanta,
Nem sempre o mundo mau a compreende.

É mártir, ou é santa, ou é heróica:
- Heróica no dever que a torna santa,
E santa no sofrer que a torna heróica!

Maria Joana Couto




quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Intimidade


Vieste. Abri-te feliz a porta da minha intimidade
Para um amor que nasceu da música das palavras
No carinho que brotou por um desconhecido...

Só não sei porque partiste à pressa
Com medo do meu amor e de procurar-te
Talvez no gelado vento
Do meu sofrimento.

No ar pairou apenas o teu cheiro
E a cruel necessidade de varrer,
Ainda que com doçura,
Imensa ternura
E uma secreta mágoa,
O pó fininho
Impresso
No chão escuro...
Eco longínquo
E manso
Dos teus passos.

Sophia Guiomar, Av. 18-12-2008



sábado, 24 de outubro de 2009

À beira do lago...


Entre a paisagem, onde a vista pousa,
E o espírito que a vê risonho ou triste,
Mais duma vez tal concordância existe,
Que ver, e ver-se a gente, é uma só cousa.

No lago azul espelha-se uma rosa
E ao lume da minh' alma, onde floriste,
Como na hora em que ante mim surgiste,
Nua Susana, espelhas-te radiosa.

Treme no lago e na alma o mesmo afago...
Mas uma nuvem de cariz aziago
Ensombra, a um tempo, a alma e o lago, inquietos:

E então passam, com tristes semelhanças,
Na minh' alma, negríssimas lembranças,
E, no lago, dois grandes cisnes pretos...

Eugénio de Castro