sábado, 12 de março de 2011

História - uma ciência?



A história tem um carácter científico sobre o qual muito se escreveu já.
Não tem, porém, o aspecto uniforme das outras ciências e não tem havido grande possibilidade de acordo sobre o que seja a história. O próprio objecto - reconstituição do passado - é tão vasto que quase podemos afirmar que é impossível.
Quase podemos afirmar que a história é uma ciência falhada : não consegue arranjar o seu objectivo.
Se pensássemos escrever a nossa história seria muito difícil - não poderíamos fazê-la porque não nos lembramos de todo o passado.
Os que costumam escrever o seu próprio diário, ao lê-lo anos depois, parece-lhe estranho por encontrá-lo cheio de imprecisões, de incorrecções. O que sucederá então para a história da humanidade?
A história realiza o seu objectivo por meio de duas categorias de elementos: vestígios e testemunhos de pessoas que presenciaram os factos e os relataram.
A reconstituição do passado é puramente hipotética.
Da pré-história temos apenas vestígios. Não há testemunhos - o homem não conhecia os sinais para se exprimir, ou, conhecendo-os, não registou os factos.
Hoje, porém, o avanço científico e tecnológico ajuda à interpretação desses vestígios por múltiplas informações ou analogias com o actual.
Para as épocas seguintes já se trabalha com maior segurança.
Hoje todo o trabalho da história é de especialistas que se servem dos recursos dos mais variados ramos das ciências e da tecnologia.
É diferente conhecer história e fazer história, pois exige um conhecimento vasto e um espírito apurado.
O trabalho histórico representa uma das tarefas mais importantes do homem,mas prevê logo um certo número de auxiliares da história, sobretudo para a interpretação crítica dos vestígios - determinar-lhes a época, por exemplo.
Por vezes, o espírito do investigador tem um carácter de adivinhação, como os de Schleiman e Evens, por exemplo, pelo que o conhecimento das ciências auxiliares da história não basta, porque é preciso ter intuições.
Outro aspecto da utilização dos documentos em história diz respeito aos testemunhos - orais e escritos.
Orais são as tradições - ecos do passado, com fundo de verdade, mas muito deturpadas.
Com os testemunhos escritos é preciso fazer a reconstituição: se estão interpolados, se são verdadeiros, etc.E a sua recolha e crítica não pode estar toda a cargo do historiador. Em face de vestígios dispersos, de elementos necessários para a reconstituição, ele tem, porém, sempre de intervir. Se os factos que se conhecem são em pequeno número, o seu trabalho torna-se mais difícil, porque tem de preencher essas lacunas por analogia com factos semelhantes.
O historiador tem de dar um aspecto natural, real, dado que os documentos não dizem tudo sobre certos aspectos e quanto mais imprecisos e incertos eles são muito mais difícil é o seu estudo. Por outro lado, quanto maior for o número de factos, quanto mais precisos forem, mais fácil se torna o seu estudo.
É na maneira como o historiador estuda e utiliza os documentos que se revela a sua habilidade e inteligência. Daí que encontremos interpretações muito diversas sobre certos documentos. E para vivificar a história é necessária certa habilidade pessoal, enquanto que para recolher e provar a autenticidade do documento qualquer bom técnico serve.
A história é uma disciplina pouco segura pela própria natureza,sobretudo pelo emprego de métodos e estudos falíveis. Progride com o aperfeiçoamento dos seus conhecimentos, mas dificilmente dá uma certeza. O aprofundamento de noções e conhecimentos não dão certeza.
Apesar do desenvolvimento das ciências auxiliares da história cada vez se reconhece mais a impossibilidade de alcançar a verdade.
Por isso, quando se fala em leis históricas estas devam ser tomadas em sentido especial. Não são como as leis metafísicas, são generalizações um pouco vagas, imprecisas, leis que não dominam e prevêem os fenómenos.
Tomamos como exemplo o facto da existência de classes desiguais darem origem a conflitos. Mas nada se sabe que faça prever tal conflito.
São leis um pouco aproximativas,que não abrangem casos particulares.
A história não consegue ser uma ciência exacta ainda que recorra a ciências exactas, sempre que necessário, para o apuramento cabal da verdade.