terça-feira, 17 de maio de 2011

Testemunho



"São tão raros os bons amigos que, quando a fortuna me depara algum que realmente o seja, sinto que alguma coisa de comum me prende a ele. E esse laço misterioso envolve e trava tão intimamente as duas existências que, ao apagar-se uma, a outra bruxoleia, como agitada por um vento de morte.
Há vinte anos, Guilherme de Azevedo levou-me a casa de Júlio César Machado(...). E desde essa hora, o coração do brilhante escritor abriu-se para mim nas mais doces e francas expansões e demonstrou-me que, na sociedade de hoje,(...)ainda há espírito de eleição, sobrenadando ao limo em que se rebolca a mascarada geral.
Nunca lhe devi favores e nunca mos deveu,(dado)que o desinteresse é a pedra de toque para os afectos imperecíveis. Mas nos lances amargurados, como nas efémeras alegrias da vida, os nossos braços travavam-se, os nossos risos fundiam-se num riso, as nossas mágoas fundiam-se numa só mágoa."
in Cândido de Figueiredo, Figuras Literárias

...

É um vocabulário meio careta, talvez de difícil interpretação para todos nós, hoje em dia.
Mas aquela noção aguda de que o mundo ao nível dos afectos não passaria de uma mascarada geral, continua a ter grande actualidade.
Felizmente que, para cada um de nós, vamos encontrando uma ou outra excepção.