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quarta-feira, 10 de julho de 2019

Valsa das rosas - Russian State Symphonic Orchestra














 Rosas...flores de verão,
 ébrias de calor,
 fragilizadas sob o sol abrasador
 que lhes cresta as pétalas
 ao beijá-las 
com devoção e fervor...
...fremente de emoção,
num murmuro labor,
sussurro baixo, de mansinho:
...são para ti, meu senhor...



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Aroma...e vida

não sei se a vida é curta
ou longa demais para nós.
mas sei que nada do que vivermos tem sentido
se não tocarmos o coração 
das pessoas.

muitas vezes basta ser:
colo que acolhe;
braço que envolve;
palavra que conforta;
silêncio que respeita;
alegria que contagia;
lágrima que acaricia;
desejo que sacia;
amor que promove.

e isso não é coisa do outro mundo - 
- é o que dá sentido à vida.
é o que faz com que ela não seja
nem curta,  nem longa demais.
mas que seja intensa,
verdadeira e pura
enquanto durar.

Cora Coralina

Obs: - Para alguém se dar em pleno e a tempo inteiro até pode ser colo,braço, palavra, silêncio, alegria, lágrima, desejo... numa palavra, ou duas, *puro amor*. Só é difícil é ser tudo isso ao mesmo tempo e todo o tempo... 

sábado, 8 de novembro de 2014

Rosa branca à chuva...


Imagem da web

Do meio da névoa, a manhã chorava sobre as rosas
num pranto doce, com meneios dançantes, ritmados.

Pobres rosas de Outono de corolas pendidas,
injustamente estremecidas pelo vento acre, sem calor...

A manhã, o dia e as rosas
 choravam por ti, por mim, por nós,
exaustos e sem cor.

Por todos nós, amor.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Adeus...


Adeus! Adeus! Partir... eis o destino!
Para dizer adeus ao mundo vim.
Um adeus me persegue de menino;
Anda na minha sombra, vive em mim.

Sou sempiterno adeus! Vou-me encarnando
Nas formas do meu próprio padecer...
Desgrenhadas figuras soluçando,
Dizem-me adeus nos longes do meu ser.

Adeus! O carro foge. O sol desmaia...
Um gesto, um lenço tremulando ao vento...
Depois, a rósea tarde que se espraia,
Numa onda de negro sentimento.

E vejo confundir-se a minha aldeia
Com as nuvens além dos horizontes...
Dela me fala a triste lua cheia,
Que em seu alvor negrejam ermos montes.

{...]

Eu vejo-te, sofrendo...  A minha dor
Lembra a imagem vivente do teu rosto.
Sofrendo é ser contigo, eterna Flor,
Que deste vida eterna ao meu desgosto.

E agora viverei de tudo quanto
É mais  que tua angélica presença;
Isso que no teu ser é já meu canto
E em lágrima divina se condensa.

Por aqui, meu Amor, irei vivendo
Da sombra que teu vulto, em mim, deixou.
Quando te disse adeus e o sol, morrendo
Nos teus olhos - tão negros! - se ficou...

Viverei duma eterna despedida,
Por esse mundo, ao deus-dará da sorte;
Longe de ti, que  és a minha vida,
Perto de mim, que sou a minha morte!

Teixeira de Pascoais, Terra Proibida

terça-feira, 16 de julho de 2013

Liberdade de um outro...


Porque é culpa, se alguma coisa é culpa,
não multiplicar a liberdade de um ser amado
de toda a liberdade que em nós possamos achar.
Onde amamos, temos apenas isto:
deixar-nos uns aos outros; porque prender-nos
é-nos fácil e não é preciso aprendê-lo.

Rainer Maria Rilke, Requiem por uma Amiga

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Beijo na face...


                                                                       
                                                                                29 de Julho de 1853 (onze horas e meia da noite)

« - Esta noite, fiz uma experiência que se resume nisto: pode-se arrebatar uma alma, num beijo.
     Furtei um e, pelo refluxo do meu sangue ao coração, senti, e pressenti, como semelhante bagatela poderia ser uma traição ou decidir de um destino. O movimento fora, aliás, espontâneo e irresistível. Simpatia, sentimento de piedade e de enternecimento, atracção e , pronto, encontrei-me com os lábios sobre uma face e uma face que não fugia. O beijo, ao princípio quase fraternal, pouco a pouco foi-se tornando quase apaixonado. - O arrebatamento rápido, a metamorfose de um sentimento sob a influência do sexo, o poder de um beijo e respectiva embriaguez, a espantosa capacidade de dissimulação da mulher, a rapidez com que se arrepende, tudo isto me ocorreu com a velocidade do pensamento, ao contacto da pele acetinada, ou antes, um segundo depois. E tudo isto sem amargura, porque sinto que realmente não fiz mal. Talvez antes sentisse como se pode fazê-lo quando as circunstâncias e as personagens são outras.
  Guardo uma recordação encantadora, a de uma emoção eléctrica e de um beijo muito terno e muito ingénuo. Não tinha o ardor febril, mas o perfume da rosa. Inocente, amoroso, estouvado. Não, não mo censuro e vou conservá-lo a perfumar-me a memória como uma daquelas raridades que o romeiro, no regresso de uma das suas peregrinações, coloca entre o que de mais precioso possui.»


                                                                                               Ariel, Diário Íntimo  

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Moinhos da vida...


Los hijos de Don Quijote

Éramos jovens e todos os moinhos
Que vislumbrávamos ao fundo dos caminhos
Eram gigantes para investir e derrubar
A bela e famosa Dulcineia nos pedia
Para irmos sem delongas batalhar
Éramos jovens e as fitas azuis esvoaçavam
Ufanas das venturas que trilhavam
Entre as dezenas multicores dessa folia
Cantávamos bebíamos gritávamos
E em cada grito que já ninguém ouvia
Soava toda a esperança que sonhávamos
Como se o futuro coubesse num só dia
Alguns partiram já mas ficou a saudade
Da quimera que foi a nossa mocidade
E quisemos que chegasse à eternidade
Éramos jovens e vão cinquenta anos
Sortilégio de amores venturas desenganos
Trabalhos e doenças fracassos alegria
A súmula da vida que a todos contagia
Na taça com que afinal brindamos este DIA

                                             F. Salgado
                                                                        
                                                     Portalegre, 29 de Maio de 2013

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Flor a florir ao peito...


Canta - busca na vida o que é perfeito.
Olha o Sol e não queiras outro guia.
Sonha com a noite e absorve, aspira o dia,
Tal como uma flor que te florisse ao peito.

Da terra maternal faze o teu leito.
respira a terra e bebe o luar. Confia.
Faze de cada pena uma alegria
E um bem de cada mal insatisfeito.

Colhe todas as flores do teu jardim.
Todos os frutos do pomar e, enfim.
Colhe todos os sonhos do Universo.

Procura eternizar cada momento,
Fecha os olhos a todo o sofrimento
E terás feito a carne do teu verso.

Fernanda de Castro

quarta-feira, 1 de maio de 2013

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Curto espaço...


Neste curto espaço entre nós e a morte
tão mal gastamos nossa longa despedida!

......................................................

Neste curto espaço entre nós e a morte,
onde me vais perdendo,
onde te vou buscando,
nosso amor se vai embora alimentando
de despedida;

não porque morra o tempo em teus braços,
mas a vida.

Vítor Matos e Sá , in Horizonte dos Dias

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ser estranho...


«Ninguém é rigorosamente estranho a ninguém. Todos nós somos membros da mesma família humana que povoa a terra. As diferenciações que existem nos idiomas que se falam, nas raças e nas cores, são muito superficiais em comparação com o que há de essencial, que é a vida animada pela mesma substância divina e eterna que se chama Alma. Todos os homens, nasçam onde nascerem, vivam onde viverem, são filhos do mesmo Pai e, portanto, são todos irmãos.»

J.S.Nobre, in Reflexões

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Ressurreição...

Depois de tudo, temos ainda um dia de despertar aqui
ao som terrível de trombetas e clarins?
Perdoai-me, Senhor, mas consola-me
pensar que o sinal da nossa ressurreição
será dado simplesmente pelo cantar do galo.
Ficaremos ainda uns momentos na cama.
A primeira a levantar-se
será a mãe. Senti-la-emos
acender o lume em silêncio,
pôr a água a ferver sem ruído,
retirar do armário suavemente o moinho de café.
De novo estaremos em casa.

Vladimir Holan

sábado, 31 de março de 2012

A Dor...



Sorri com mais doçura a boca de quem sofre,
Embora amargure o fel que os seus lábios beberam;
É mais ardente o olhar onde, como um aljofre,
A Dor se condensou e as lágrimas correram.

Soa como se um beijo ou uma carícia fosse,
A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu;
E não há para nós consolação mais doce
Que o regaço de quem muito amou e sofreu.

Voz que jamais vibrou num soluço de mágoa,
Ao nosso coração nunca pode chegar...
Mas o pranto, ao cair de uns olhos rasos de água,
Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

Lábio que só bebeu na fonte da Alegria
É frio como o olhar de quem nunca chorou;
A Bondade é uma flor que se alimenta e cria
Dos resíduos que a Dor no coração deixou.

Em tudo quanto existe o Sofrimento imprime
Uma augusta expressão...mesmo a Suprema Graça,
Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime
Que torna imorredoira a Inspiração que passa.

É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida,
Dor sem resignação, Dor de estóico ou de santo,
Só de a vermos passar no tumulto da Vida
Deixa os olhos da gente enublados de pranto.

António Feijó

Dissonâncias


Pedra a pedra
a casa vai regressar.
Já nos ombros sinto o ardor
da sua navegação.

Vai regressar
 o silêncio com as harpas.
As harpas com as abelhas.

No verão, morre-se
tão devagar à sombra dos ulmeiros!

Direi então:
Um amigo
é o lugar da terra
onde as maçãs brancas são mais doces.

Ou talvez diga:
O outono amadurece nos espelhos.
Já nos meus ombros sinto
a sua respiração.
Não há regresso: tudo é labirinto.

Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Rosas desapontadas...


«Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes ninguém».
(disse o Princepezinho)

E as rosas estavam desapontadas.

- Sois belas, mas vazias: não se pode morrer por vós.
Qualquer transeunte pensaria que a minha rosa se parece convosco.
Ela sozinha é porém mais importante que vós todas, pois foi a ela
que eu reguei.
É a minha rosa.

Saint Exupéry

domingo, 27 de novembro de 2011

Aceitar-se...Gostar de si...



« Dá-me tanta tristeza narrar estas lembranças!
Há já seis anos que o meu amigo se foi com o seu cordeiro.
Se tento descrevê-lo aqui, é precisamente porque não o quero esquecer.
É triste esquecer um amigo!
Nem todos têm um amigo.
E  eu corro o risco de ficar com as pessoas grandes,
que só se interessam por números.»

Saint- Exupéry

«Mas nós,
nós que compreendemos a vida,
não ligamos aos números.»
Saint-Exupéry

Que tenhamos claro dentro de nós o seguinte:

Não posso confiar nos outros,
sem primeiro confiar em mim.
Não posso valorizar os outros,
sem antes me valorizar.
Não tenho condições de cativar alguém,
se eu mesmo não gosto de mim,
se nem a mim mesmo eu cativei.

A arte de compreender a vida exige necessariamente a arte de valorizá-la.
Sou um mistério do amor [de Deus], inconfundível e único, pensado e criado para a felicidade.

E porquê, tantas vezes, vivo insatisfeito?
Porquê não consigo alegrar-me com o que sou, com a vida que brota em mim, com as infindas possibilidades de realização que o dia a dia me oferece?

Ainda não me cativei. Talvez seja esta a verdade...Não sei gostar de mim mesmo. não sei amar-me. E isso não é bom...
Se a medida do amor aos outros deve ser a medida do amor que tenho a mim mesmo,
como poderei amá-los, sem amar-me?

«Ama ao próximo como a ti mesmo», diz Jesus Cristo.

E se não gosto do que é meu,
se não gosto do que faço,
que condições terei para gostar do meu próximo,
de amar o que é seu,
de apreciar o que ele faz?

Li, num cartaz sobre a vida, uma frase que nunca mais esquecerei:
«É verdade que tenho pouco,
mas GOSTO do pouco que tenho.»


É assim mesmo, amigo!
O amor faz o pouco ser bastante...


C. A. Schmitt



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A rosa do Pequeno Príncipe


«Levei muito tempo para compreender
de onde ela viera.
Palavras pronunciadas ao acaso é que foram.
pouco a pouco, revelando tudo».

Cativar alguém exige tempo,
muito tempo, muita paciência, e, 
sobretudo, muito amor.

É preciso conseguir que o outro, espontaneamente, se «sinta em casa». Que a confiança, mais que uma conquista, seja uma consequência natural, porque uma descoberta maravilhosa aconteceu:
a sintonia de corações.

Sem ela, ninguém «cria laços» com alguém.
Sem ela, ninguém é cativado profundamente.
Sem ela, ninguém conhecerá a alegre magia de «saber cativar».

O mundo massificado de hoje, porém, tem pressa. Já não suporta que se fale de paciência, de ir devagar, de «perder tempo»...
Por isso, conhece tudo superficialmente. À flor da pele.
Por isso prefere contactos físicos, de corpo a corpo, e não espirituais, de coração a coração.
Por isso, infelizmente, o mundo descrê da amizade verdadeira.
Crê em momentos fugazes e vazios, de encontros igualmente fugazes e vazios.
Crê que ama, quando «faz sexo».
Crê que se dá, quando apenas procura a auto-satisfação dos seus egoísmos.

Crê que faz alguém feliz;
Crê haver descoberto a felicidade para si, quando, afinal, em ambos cresceu a insatisfação e o tédio.

Porquê não admitir então
a falsidade de tais princípios?
Porquê não trabalhar por um amor
mais nobre,
mais genuíno,
mais realizante?

C..A. Schmitt

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Aqui...


AQUI  oiço o trabalho do outono
arte de abelha, a chama verde
e breve.

Seria o meu amor se não fosse
definitiva sede,
país sem nome.

Já mal o vejo, argila branca,
o riso fácil, a luz quebrada
em dentes de água.

Eugénio de Andrade. Matéria Solar

domingo, 18 de setembro de 2011

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.

Sophia deMello B. Andresen, Livro Sexto