quinta-feira, 4 de julho de 2013

Beijo na face...


                                                                       
                                                                                29 de Julho de 1853 (onze horas e meia da noite)

« - Esta noite, fiz uma experiência que se resume nisto: pode-se arrebatar uma alma, num beijo.
     Furtei um e, pelo refluxo do meu sangue ao coração, senti, e pressenti, como semelhante bagatela poderia ser uma traição ou decidir de um destino. O movimento fora, aliás, espontâneo e irresistível. Simpatia, sentimento de piedade e de enternecimento, atracção e , pronto, encontrei-me com os lábios sobre uma face e uma face que não fugia. O beijo, ao princípio quase fraternal, pouco a pouco foi-se tornando quase apaixonado. - O arrebatamento rápido, a metamorfose de um sentimento sob a influência do sexo, o poder de um beijo e respectiva embriaguez, a espantosa capacidade de dissimulação da mulher, a rapidez com que se arrepende, tudo isto me ocorreu com a velocidade do pensamento, ao contacto da pele acetinada, ou antes, um segundo depois. E tudo isto sem amargura, porque sinto que realmente não fiz mal. Talvez antes sentisse como se pode fazê-lo quando as circunstâncias e as personagens são outras.
  Guardo uma recordação encantadora, a de uma emoção eléctrica e de um beijo muito terno e muito ingénuo. Não tinha o ardor febril, mas o perfume da rosa. Inocente, amoroso, estouvado. Não, não mo censuro e vou conservá-lo a perfumar-me a memória como uma daquelas raridades que o romeiro, no regresso de uma das suas peregrinações, coloca entre o que de mais precioso possui.»


                                                                                               Ariel, Diário Íntimo