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sábado, 17 de agosto de 2019

Caminho - II

pink-peonies - ramil gapapasov

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro - te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso solitário. 
Corta os pés como a rocha dum calvário, 
 E queima como a areia!... Foi no entanto

Aguarela de ilipa Ventura- Rosto inédito

Que chorámos a dor de cada um... 
E o vinho que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

Camilo Pessanha, in Clepsidra

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Conta-me contos...

[23-05-1916]
Não sei, ama, onde era,
Nunca o saberei...
Sei que era primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha, 
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)


E o jardim tinha flores 
De que não me sei lembrar... 
Flores de tantas cores.... 
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...)


Qualquer dia viria
Qualquer coisa a fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
( Filha, o resto é morrer...)


Conta-me contos, ama... 
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama 
Que eu fui nessa solidão...

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

I - Tu não és...



[...]
Tu não és mulher.(...)É quando falo de ti que as palavras te chamam fêmea, e as expressões te contornam de mulher. Porque tenho de te falar com ternura e amoroso sonho, as palavras encontram voz para isso apenas em te tratar como feminina.
Mas tu, na tua vaga essência não és nada. não tens realidade, nem mesmo uma realidade / só / tua. Propriamente, não te vejo, nem mesmo te sinto.´És como que um sentimento que fosse o teu próprio objecto e pertencesse todo ao íntimo de si-próprio. És sempre a paisagem que eu estive quase para (poder) ver, perdido num eterno Agora para além da curva do caminho. O teu perfil é não seres nada, e o contorno do teu corpo irreal desata em pérolas separadas o colar da ideia de contorno. Já passaste, e já foste, e já te amei - o sentir-te presente é sentir isto.
Ocupas o intervalo dos meus pensamentos e os interstícios das minhas sensações. Por isso eu não te penso nem te sinto, mas os meus pensamentos são / opiais/ de te sentir, e os meus sentimentos góticos (?) de evocar-te.
[...]
Bernardo Soares( heter.  de F. Pessoa), in Livro do Desassossego

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Palavras e silêncio...


O silêncio é a minha maior tentação.

(...)
 As palavras, esse vício ocidental, 
estão gastas. envelhecidas, envilecidas.
 Fatigam, exasperam.
E mentem, separam,  ferem.  


 Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! 


 Por cada palavra que chega até nós,
 ainda quente das entranhas do ser, 
quanta baba nos escorre em cima
 a fingir de música suprema!





 A plenitude do silêncio
 só os orientais a conhecem!
 Lao Tsé ensinou
 que quem sabe não fala
 e quem fala não sabe.(...)

Eugénio de Andrade, in Poesia e Prosa: Rosto Precário

*** Formatação da responsabilidade de Msilva.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Vestida para um baile...


Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com as suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

*
Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

*
Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
pois jamais se viveu com tanta plenitude.


Mas para falar da sua vida
tem de baixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles

domingo, 13 de janeiro de 2019

O rouxinol e a Noite...

Cantilena



Cortaram as asas 
ao rouxinol.
Rouxinol sem asas
não pode voar.


Quebraram-te o bico,
rouxinol!
Rouxinol sem bico 
não pode cantar.


Que ao menos a Noite 
ninguém, rouxinol!,
ta queira roubar.
Rouxinol sem Noite 
não pode viver,

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A estrada incompreendida


Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não? 
Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste 
A mão que teve
Qualquer sentido 
Incompreendido, 
Mas tão de leve!...
Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida...
Sei eu que quando 
A tua mão 
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu, 
Sem o querer, 
Em mim tocasses
Para dizer 
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses 
Que tinha ser.
Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa 
Coisa feliz.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro-[09.05.1934]

sábado, 1 de dezembro de 2018

Antevendo uma morte anunciada...


[19-11-1935] 

Há doenças piores do que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhada mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

N.B: Talvez um dos últimos poemas datados de Pessoa ortónimo. Daí a poucos dias - 30 de Novembro - veio a falecer, queixando-se à irmã que não via  e pedindo os óculos.

domingo, 29 de outubro de 2017

Das cinzas da nossa memória...

Das cinzas da nossa memória...

há momentos que só poetas 

conseguem fazer reviver...

ou  os artistas 
que manipulam cores, tons, 
imagens que amaram, 
aconchegando-as no âmago de sentidos
sempre despertos
 para o perene enamoramento do mundo 
em que apareceram e evoluíram.



Oh, a frescura intensa da manhã,
Batendo, lado a lado, toda a estrada! 
- Inda há pouco apanhei uma braçada
De alfazema florida, ingénua e sã.

Abre no céu a fúlgida romã 
Que em beijos de oiro se desfaz, cansada,
Oh, como eu sinto, agora remoçada,
A minha fé tranquila de cristã...

Nos silvados despontam as amoras,
Começa, ao longe, a vibração das noras.
Todo o campo se alegra e se ilumina!

Passam pardais a grazinar em bando,
Um rebanho, um pastor, de quando em quando,
- E cheira a mato, a frutos, a resina...

Virgínia Vitorino






sábado, 11 de fevereiro de 2017

Círculos de violência - o silêncio




hoje a fria razão veio ao meu encontro
e vi profunda tristeza em seu olhar
aconcheguei-a contra mim suavemente
beijei-lhe com doçura a fronte pura
mantive o silêncio e pronto o sorriso
num desejo profundo de a acalentar

depois vacilei para encontrar o rumo
que nada tivesse com o verbo amar
e a intenção diluiu-se em fumo
- algo insistia em o fazer lembrar.

um soluço ficou preso na garganta
escondido o rosto a  disfarçar

... era lâmina que cortava a carne
 rasgava a alma
 num holocausto feroz de tradição milenar

segunda-feira, 24 de março de 2014

Íntima...


Hora crepuscular, pálida e triste...
No luxuoso salão, como um desmaio,
O sol, pela janela que entreabriste,
Dizia-nos adeus no último raio.

Ficámos um momento extasiados,
Vendo as glórias do poente moribundo,
E os nossos pensamentos enlaçados
Fugiam na visão de um outro mundo.

Os lábios nem de leve se agitavam,
Comprimindo suspiros inefáveis,
Mas quando os nossos olhos se cruzavam
Faziam confidências adoráveis.

E assim ficámos deliciosamente
Sem escutar, na mística abstracção,
O movimento isócrono e plangente
Dum antigo relógio de salão.

Caía a noite, no silêncio amigo,
Do céu profundo como azul ferrete;
Deram seis horas, e o relógio antigo
Fez ouvir um gracioso minuete.

E aqueles sons um eco despertaram,
Que nos encheu de angústia e de saudade...
 - A saudade dos tempos que passaram,
A vaga nostalgia de outra idade...

E nesses largos sonhos impolutos,
Que daríamos nós, Alma insofrida,
Para imobilizar esses minutos
Que nunca se repetem nesta vida?!

António Feijó (1859-1917),  in Bailatas

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Na aldeia...



Duas horas da tarde. Um sol ardente
Nos colmos dardejando, e nos eirados.
Sobreleva aos sussurros abafados
O grito das bigornas estridente.

A taberna é vazia; mansamente
Treme o loureiro nos umbrais pintados;
Zumbem à porta insectos variegados,
Envolvidos do sol na luz tremente.

Fia à soleira uma velhinha: o filho
No céu mal acordou da aurora o brilho
Saiu para os cansaços da lavoura.

A nora lava na ribeira, e os netos
Ao longe correm seminus, inquietos,
No mar ondeante da seara loura.

Gonçalves Crespo (!846-!883), Miniaturas/ Nocturnos


quinta-feira, 4 de julho de 2013

Beijo na face...


                                                                       
                                                                                29 de Julho de 1853 (onze horas e meia da noite)

« - Esta noite, fiz uma experiência que se resume nisto: pode-se arrebatar uma alma, num beijo.
     Furtei um e, pelo refluxo do meu sangue ao coração, senti, e pressenti, como semelhante bagatela poderia ser uma traição ou decidir de um destino. O movimento fora, aliás, espontâneo e irresistível. Simpatia, sentimento de piedade e de enternecimento, atracção e , pronto, encontrei-me com os lábios sobre uma face e uma face que não fugia. O beijo, ao princípio quase fraternal, pouco a pouco foi-se tornando quase apaixonado. - O arrebatamento rápido, a metamorfose de um sentimento sob a influência do sexo, o poder de um beijo e respectiva embriaguez, a espantosa capacidade de dissimulação da mulher, a rapidez com que se arrepende, tudo isto me ocorreu com a velocidade do pensamento, ao contacto da pele acetinada, ou antes, um segundo depois. E tudo isto sem amargura, porque sinto que realmente não fiz mal. Talvez antes sentisse como se pode fazê-lo quando as circunstâncias e as personagens são outras.
  Guardo uma recordação encantadora, a de uma emoção eléctrica e de um beijo muito terno e muito ingénuo. Não tinha o ardor febril, mas o perfume da rosa. Inocente, amoroso, estouvado. Não, não mo censuro e vou conservá-lo a perfumar-me a memória como uma daquelas raridades que o romeiro, no regresso de uma das suas peregrinações, coloca entre o que de mais precioso possui.»


                                                                                               Ariel, Diário Íntimo  

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Moinhos da vida...


Los hijos de Don Quijote

Éramos jovens e todos os moinhos
Que vislumbrávamos ao fundo dos caminhos
Eram gigantes para investir e derrubar
A bela e famosa Dulcineia nos pedia
Para irmos sem delongas batalhar
Éramos jovens e as fitas azuis esvoaçavam
Ufanas das venturas que trilhavam
Entre as dezenas multicores dessa folia
Cantávamos bebíamos gritávamos
E em cada grito que já ninguém ouvia
Soava toda a esperança que sonhávamos
Como se o futuro coubesse num só dia
Alguns partiram já mas ficou a saudade
Da quimera que foi a nossa mocidade
E quisemos que chegasse à eternidade
Éramos jovens e vão cinquenta anos
Sortilégio de amores venturas desenganos
Trabalhos e doenças fracassos alegria
A súmula da vida que a todos contagia
Na taça com que afinal brindamos este DIA

                                             F. Salgado
                                                                        
                                                     Portalegre, 29 de Maio de 2013

domingo, 9 de dezembro de 2012

Emoções no outono dos dias...

maganyos

Folhas ao vento
esparzem no ar diáfano
melodias.
Paixões, desejos, ilusões,
tudo se condensa no momento
 como choro de recordações.

Raza o seu fim este outro outono
num baile de folhas ciosas
que não represam o calor do verão
ou perfume de rosas...
 Rubras, castanhas...
ou em  verdes amarelados,
são como macias sedas
  crocantes,pisadas, gritantes,
 laivos de vida extenuados...
 - vida/vidas a preparar o fim, expectantes,
 cores outonais no estremecer da ternura contida.

Sob rescaldo de paixões,
imersas em véu de água ou de luz,
essas folhas ao vento
semelham fímbrias de cetim;
 e traçam no ar nítido, leve,  
um baile que seduz...

... mítico canto de negro cisne
a rasgar fundo as emoções.

S.G.