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segunda-feira, 10 de março de 2014

Nocturno.III


Contaram-me, quando era pequeno,
a história de várias estrelas,
 não a história dos nomes que têm e não conhecem por nós,
sim uma história em que eram estrelas,
verdadeiras estrelas nem pregadas no céu.
Muitas vezes, ouvir contar foi só:
estar de cabeça pousada no peitoril da janela
 a vê-las tremeluzir...
e tornarem-se mais salientes com o escurecer.


Muitas vezes, foi só
aceitar o frio e fechar a janela
 - e, em pequeno, não era eu quem a fechava.

Jorge de Sena


quinta-feira, 4 de julho de 2013

Beijo na face...


                                                                       
                                                                                29 de Julho de 1853 (onze horas e meia da noite)

« - Esta noite, fiz uma experiência que se resume nisto: pode-se arrebatar uma alma, num beijo.
     Furtei um e, pelo refluxo do meu sangue ao coração, senti, e pressenti, como semelhante bagatela poderia ser uma traição ou decidir de um destino. O movimento fora, aliás, espontâneo e irresistível. Simpatia, sentimento de piedade e de enternecimento, atracção e , pronto, encontrei-me com os lábios sobre uma face e uma face que não fugia. O beijo, ao princípio quase fraternal, pouco a pouco foi-se tornando quase apaixonado. - O arrebatamento rápido, a metamorfose de um sentimento sob a influência do sexo, o poder de um beijo e respectiva embriaguez, a espantosa capacidade de dissimulação da mulher, a rapidez com que se arrepende, tudo isto me ocorreu com a velocidade do pensamento, ao contacto da pele acetinada, ou antes, um segundo depois. E tudo isto sem amargura, porque sinto que realmente não fiz mal. Talvez antes sentisse como se pode fazê-lo quando as circunstâncias e as personagens são outras.
  Guardo uma recordação encantadora, a de uma emoção eléctrica e de um beijo muito terno e muito ingénuo. Não tinha o ardor febril, mas o perfume da rosa. Inocente, amoroso, estouvado. Não, não mo censuro e vou conservá-lo a perfumar-me a memória como uma daquelas raridades que o romeiro, no regresso de uma das suas peregrinações, coloca entre o que de mais precioso possui.»


                                                                                               Ariel, Diário Íntimo  

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sobre outros lábios


Eu crescia para o verão.
para a água
antiquíssima da cal
crescia violento e nu.

Podiam ver-me crescer rente ao vento,
podiam ver-me em flor,
exasperado e puro.

À beira do silêncio,
eu crescia para o ardor
calcinado dos cardos
e da sede.

Morre-se agora
entre contínuas chuvas,
os lábios só lembrados
de um verão sobre outros lábios.

Eugénio de Andrade, Obscuro domínio

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Pinóquio, a Fada Azul e o Grilo falante





Quando criança, a história de Pinóquio impressionou-me muito pela negativa, porque, aquele boneco fútil e brincalhão, só tarde e más horas se apercebeu que o que era mais importante na vida era saber amar. Nem era já tanto ser amado, mas aprender a amar de uma forma responsável. Para isso, a Fada Azul, aquela fadinha com varinha de condão e tudo, até lhe arranjou uma espécie de prefeito para o chamar à razão e lhe mostrar o caminho mais justo que não magoaria o afecto bondoso e tolerante do pai Gepeto.
Mas o tonto boneco não tinha emenda: faltava às aulas, só vivia para a brincadeira e, para fugir às responsabilidades, mentia descaradamente.O castigo era ver crescer o nariz de forma cruel, mas nem assim ganhava juízo, porque a mentira vivia como cupim no cerne da madeira de que fora feito.
Aquelas rocambolescas aventuras em que se metia não me faziam mossa - não me impressionavam nadinha. Comigo pensava que era bem feita e que tinha o que merecia porque não acatava os conselhos nem do pai, nem da madrinha e ainda menos da sua consciência, aquele pobre mentor de fraque e guarda-chuva que lhe fora disponibilizado e a quem, na hora da verdade, sempre deixava "a falar para o boneco" para fazer o que bem lhe apetecia.
De toda aquela história, de que verdadeiramente não gostava, havia duas, ou melhor, três coisas, que invejava ao atravessado herói: ter uma fada madrinha que se disponibilizava a ajudá-lo; uma consciência que lhe mostrava o caminho recto e ter um pai que, além de o ter criado do nada, ainda por cima era uma doçura de pessoa.
Se é certo que a Fada Azul o transformara quase em menino e lhe dera o dom da fala para alegrar a solidão de Gepeto, também era verdade que possuía uma varinha mágica. E os poderes daquela varinha mostravam-me maravilhosas perspectivas que se prendiam com beleza, bondade e justiça que, muito cedo, começara a distinguir e a reconhecer, sonhando-as.
Depois a pequenez do Grilo falante e o seu aspecto engraçado, aliados aos sábios juízos que emitia, faziam-me lembrar que se tivesse assim um bichinho daqueles que conversasse comigo nas longas horas em que brincava só, alertando-me para não cometer tolices, me pouparia ruidosos ralhos e desmesuradas sovas ao longo do dia e dos dias, porque eu era assim um bombo de pancada nas mãos de minha mãe. E esse aspecto era muito, muito importante, porque as pancadas doíam mesmo e os ralhos me perfuravam os tímpanos.
Por último,havia a forma carinhosa como Gepeto o tratava, suportando-lhe as traquinices, e conversando e dançando com ele.Aí via a diferença entre ele e um pai que coadjuvava a mãe nos ralhos nas poucas horas em que se encontrava em casa, além de frequentes vezes lhe ocupar cruelmente o triciclo robusto que não partia porque era feito de ferro pesado e madeira grossa e dura. As rodas chiavam então sob o seu peso e eu quedava-me admirada porque a mãe não aparecia a protestar contra o barulho que as rodas, também em ferro, faziam, chiando num louco frenesim de sons, no empedrado cimentado da larga entrada da casa. Tinha mesmo má vontade contra o pai nessas alturas, porque me privava de usufruir de um bem demasiadas vezes vedado, ou como castigo por alguma tolice, ou para não provocar o tal barulho que tanto contendia com o frágil sistema nervoso da mãe.
Acho que no meio de tudo isto só desculpava um pouquinho o Pinóquio por mentir. Era criança e aquela vontade de fazer diabruras e querer fugir depois às responsabilidades... era uma enorme tentação! As crianças são geralmente mitónomas até por volta dos catorze anos, mas eu cedo aprendi que ser apanhada numa mentira era sempre mais grave para mim do que assumir a verdade do facto, porque,se apanhada, além de uma tareia, ainda levava com uma boa camada de pimenta na língua que me deixava numa aflição sem nome.
Ora o Pinóquio além de não levar açoites, não tinha de suportar a pimenta...
Hoje penso como, pela vida fora, o meu amor à verdade me acarretou quantos reais transtornos!...quando crescer o nariz teria sido para mim, tanto em criança, como em adulta, o menor dos problemas?...
Vendo bem, o boneco Pinóquio ainda hoje me não é de todo simpático, porque, além de tudo o mais, ser uma Fada Azul ou um Grilo ajuizado, ou mesmo uma figura ternurenta como Gepeto, me daria muito mais prazer por poder contribuir para tornar o meu mundo bem melhor do que o que conheci em menina e ainda hoje conheço.

domingo, 17 de janeiro de 2010

A Primeira Hora



O ano desfolhou-se, dia a dia,
como uma flor cortada, um girassol
e dia a dia a sua voz calou-se
como velha, cansada, melodia
de velho rouxinol.

Ontem, à meia-noite, a minha rua
abriu de par em par as portas, as janelas
e deitou fora o lixo, as coisas velhas:
cacos, farrapos, latas e panelas.

Era a Primeira Hora
do ano que chegava.
... E eu?...pensei...que posso deitar fora?
Que poderemos todos deitar fora?

Ai, Senhor, tanta coisa!
Nem cacos, nem farrapos
nem latas velhas, nem trapos,
mas tanta dor,
Senhor,
mal empregada!
Tantos gestos errados,
as pequenas traições,
os pequenos pecados.
As calúnias subtis,
as flores venenosas
da alma envenenada
e a cicatriz da culpa inconfessada
e as palavras que ferem como gumes
de afiadas adagas.

Ressentimentos, azedumes
que te fazem sangrar as Cinco Chagas.
As larvas dos ciúmes
e as cobras rastejantes
dos pensamentos impuros.
Egoísmos sem fim
e os altos muros
das torres de marfim.
Descrença,
indiferença,
despeitos recalcados,
amassados com ódio, com rancor
e o amargo sabor
da solidão.

Ah, Senhor, nesta hora de perdão,
nesta Primeira Hora,
quantas coisas podemos deitar fora!

Fernanda de Castro, in "39 poemas"

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sobre a neve


Sobre mim teu desdém pesado jaz
Como um manto de neve... Quem dissera
Porque tomba em plena Primavera
Toda essa neve que o Inverno traz!

Cercavas-me 'inda há pouco de lilás
E de rosas silvestres... quando eu era
Aquela que o destino prometera
Aos teus rútilos sonhos de rapaz!

Dos beijos que me deste não te importas,
Asas paradas de andorinhas mortas...
Folhas de Outono em correria louca...

Mas 'inda um dia, em mim ébrio de cor,
Há-de nascer um roseiral em flor
Ao sol da primavera doutra boca!

Florbela Espanca, Sonetos




domingo, 16 de agosto de 2009

Rosas



Rosa, Rosae

Dá-me rosas, outras rosas
dá-me mais rosas amor.

Já olhaste bem as rosas?
Rosas-bocas rosas-olhos
e há rosas-coração.
Há rosas que são sorrisos
e rosas que são paixão
Rosa-beijo rosa-abraços
e rosas-mãos.

Numa noite de luar
uma grande rosa aberta
acenou-me num jardim:
corri logo para ela
- seria a rosa-aventura?


Pela tarde num caminho
à hora em que o sol cansado
pensava em ir-se deitar
encontrei uma roseira
com uma rosa em botão
e muitas folhas e espinhos
- e estava ali porquê?
Linda rosa cor-de-rosa

Era o amor feito rosa,
sem saber...


Merícia de Lemos [Rosa,Rosae]



sábado, 25 de julho de 2009

Indiferença

Partida

Perante a indiferença da partida
Pairou no vento em despedida
O soluço calado
No beijo selado
Ainda
E talvez
Verdade
No adeus fatigado
Destroçado
Magoado
Nesse adeus
Adeus
Até à eternidade.

Catarina Álvares, Ainda com lágrimas, 21/05/2009



Obsessão


Obsessão

Que forças obscuras detiveram
Os indecisos passos, na aurora
Duma vida sem culpa?

Que vozes ignotas, que segredos
Toldaram o olhar que reflectia
O fulgor da manhã?

Que secreta mão pousou no ombro,
Frágil, da perdida infância
E suspendeu o riso que floria
Nos lábios sem mentira?

Jamais o saberemos. Experientes
Dos humanos caminhos da tristeza,
Nunca mais nossos olhos conheceram
A luz que visionaram algum dia!

Luís Amaro (In «Artes e Letras» - Diário de Notícias, 1-05-19579


domingo, 19 de julho de 2009

Um drama - dos mais pequenos (continuação)

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A mãe, desconfiando da ausência, abriu a porta devagar e olhou admirada o vulto da filha sobre a cama. Pensou se não estaria doente porque não eram horas decentes para se dormir e aquela criatura nunca dormia. Cautelosa, aproximou-se mais, espreitou-lhe o rosto e viu lágrimas. Não lhe batera nesse dia, não a repreendera... Suspeitou de um desgosto e recordou que a notara impaciente porque o homenzinho dos jornais nunca mais chegava. Tinha-a ouvido protestar que o pobre homem levava tempo demais a fazer o troco aos fregueses, de óculos ridiculamente acavalados no nariz, sacola de pano cinzento presa ao ombro, desculpando-se que o combóio era ronceiro, nunca mais chegava... Via-se que estava impaciente para que ele acabasse a conversa e desandasse. Lembrava-se a mãe de ouvir-lhe recriminações porque a revista nunca mais chegava e, já de posse dela, fugira para o quarto... E estranhou de novo os vestígios das lágrimas e o sono àquela hora desapropriada. Antes de sair reparou na revista amarfanhada a um canto. E acabou por concluir que não devia ser nada de cuidado.
Num repente de boa vontade - não a acordou.

(Continua)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Le couloir sombre

La Solitude

Le couloir sombre


Là...
Où le couloir sombre
Garde
L'empreinte
Et l'écho
De tes pas.

...E tudo "lá" me fala de ti.
Foi rápido e intenso.
Cansa e dói recordar.
Brancuras bordadas guardam ainda as formas e o cheiro dum espasmo derradeiro que o silêncio amarfanhou. O ardor calado está filtrado em todo o lado como odor que secou.
Ainda o agora é ontem. Ainda é recente. Alguém insiste em que esqueça e ,se mais houvera que soubessem o nosso/meu segredo, mais insistiriam em torná-lo tapete de olvido, cerzido de amor e coisa nenhuma. Mas, através do espaço, surge inconsútil e puro a força nervosa e quente, a pureza do abraço. Foi contudo muito minha a ilusão e o muito amor investido nessa estranha e fugaz relação.
Quando o amor está longe de ser apenas sexo, perdura.
Perdura para lá da dor. Perdura apesar de e para além da loucura dos dias e do silêncio das noites. E do desgaste e desgosto da partida.
Metáforas para quê? Ainda o Sol não tombava no horizonte frio e quieto da tarde e alguma coisa morria e foi cedendo, cedendo, como a melodia morrente que precede o anoitecer.
Depois...depois foi só morrer.
[Chorar? Já não choro. Só verto lágrimas.]
...E, por fim, foi bom saber que alguém se deu a muito trabalho para ter razão. Porém, não sei, lá muito bem qual, ou mesmo porquê. Que abismos imensos guarda a alma de gente solitária, por vezes - e quanto! - carentes de um afecto sincero, total e seguro?! E do fundo estranho da desilusão dos afectos a estranha impressão de que houve quem se preocupasse, quem estivese a sobreviver e a ajudar a sobreviver.
Sem objectivo definido. Só para oferecer um ombro amigo.
E fez-se o esforço. Nunca se sabe até quando, tão frágil parece e já a acusar desilusão e cansaço.
...Sobrevivo? Já nem sei. Apenas sei que senti pertencer pela primeira vez a alguém e que isso não pode ser apagado, nem hoje, nem nunca. Um sonho louco? Que seja. Pena não poder multiplicá-lo entre a dor e a sensação insaciável da pertença. E só isso contou. Só isso conta.
Sonhei-me livre outrora. Mas ninguém é livre de ninguém se há encantamento. O que outrora foi... nem existiu no vento, nem no passamento para onde tudo corre. Outrora... outrora nunca existiu comparado com hoje, porque nem o amor, nem a dor, sinto que morre.
E é nesta dualidade estranha que reside a força tamanha deste bemquerer que ninguém socorre.
Tento apagar, com a força da razão, a angústia de viver. É sim? É não?.. Se a amizade gera ainda mais solidão, como evitá-la?
... Sou apenas o que sou - muito carinho e a falta dele. E o desejo do abraço. E para toda esta singeleza, a afundá-la, todo um imenso mar de sargaço. Ou todo o imenso lodo do cansaço que já não há como vencer... nem com o abraço.
... Mas deixar de sofrer para voltar à indiferença dos dias mal vividos, sem ilusões nem crença?...
- Antes, e só, as recordações.
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[13,52] [10-05-2009]

"Sentir? Sinta quem lê" - Fernando Pessoa