Algum dia há-de ser um novo dia,
Se realmente o tempo se renova,
Sepulto nesta cova
De rotina,
A ver o sol pousar sobre a colina
Em frente,
Em vez de me entregar ao sono paciente
De morrer,
Ponho-me a futurar o amanhecer.
E com toda a inquieta
Serenidade sacra dum poeta
Que descortina
A universal e própria salvação,
Vejo na imprecisão
Que a próxima alvorada
- Ou ela, ou outra, ou outra, ou outra ainda -
Dará por finda
Esta luz já monótona e cansada.
Miguel Torga, Diário VIII(1959)