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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Caminho - I

Tenho sonhos cruéis, n' alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na areia do futuro,
Embebido em saudades do presente...

[Imagem colhida na net]

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente.
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta de harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d' agora,

Sem ela o coração é quase nada: 
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

Camilo Pessanha, in Clepsidra




quinta-feira, 18 de abril de 2019

Nossa Senhora de Paris...

...no ideário poético de Mário de Sá-Carneiro 
[1890-1916]

Listas de som avançam  avançam para mim a fustigar-me 
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz.
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...

Catedral de Notre-Dame - à noite

Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa a Mar...
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos...
Mas o oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais...
Fico sepulto sob círios
Escureço-me em delírios
Mas ressurjo de Ideais...

- Os meus sentidos a escoarem-se...
Altares e velas...
Orgulho... Estrelas...
Vitrais! Vitrais! 
Vitral - Notre-Dame
Flores de Lis...

Manchas de cor a ogivarem-se...
As grandes naves a sagrarem-se...
_ Nossa Senhora de Paris!...

(in Poesias de Mário de Sá-Carneiro)

sexta-feira, 12 de abril de 2019

«Vidro côncavo»...



 


Tenho sofrido poesia
        como quem anda no mar. 
Um enjoo.
Uma agonia.
Sabor a sal.
Maresia.
 Vidro côncavo
a boiar.
Dói esta corda vibrante.
A corda que o barco prende
à fria argola do cais.
Se vem onda que a levante
vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais. 

António Gedeão, in Poesias Completas 


*** Imagens colhidas na net.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

O verdadeiro uso da razão




A dignidade da inteligência está em reconhecer, com desgosto próprio ou não que as leis naturais se não vergam aos nossos desejos, que o mundo existe independentemente da nossa vontade, que o sermos tristes nada prova sobre o estado moral dos astros, ou até do povo que passa pelas nossas janelas: nisto está o vero uso da razão e a dignidade racional da alma.

Fernando Pessoa [Barão de Teive]- in A Educação do Estóico


terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Vestida para um baile...


Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com as suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

*
Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

*
Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
pois jamais se viveu com tanta plenitude.


Mas para falar da sua vida
tem de baixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles

domingo, 13 de janeiro de 2019

O rouxinol e a Noite...

Cantilena



Cortaram as asas 
ao rouxinol.
Rouxinol sem asas
não pode voar.


Quebraram-te o bico,
rouxinol!
Rouxinol sem bico 
não pode cantar.


Que ao menos a Noite 
ninguém, rouxinol!,
ta queira roubar.
Rouxinol sem Noite 
não pode viver,

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

sábado, 12 de janeiro de 2019

"Se alguém mentiu..."


Se alguém mentiu, não fui eu.
 - Eu vinha alegre e cantava.
Se alguém mentiu foi o Sol,
se alguém mentiu foi o Mar,
que ficavam tristes, tristes,
à medida que eu cantava.

Se alguém mentiu não fui eu.
 - Se alguém mentiu, foi o Céu:
era azul e fez-se pardo,
como se fosse da Morte
que a minha boca falava.

Eu vinha alegre e cantava.
Tudo, à volta, escurecera. 
Se havia naquele dia
qualquer palavra sincera,
da minha boca saía.

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Quando a geada cai...


 Nas noites de inverno, quando a geada cai
Nem sequer se ouve o ladrar de um cão;
Por baixo do céu enorme e luminoso 
  A lua, hirta como um pedaço de metal,
Brilha, gélida e imóvel.
Sucede, porém , por vezes, ouvir-se
Um cão que, não se sabe porquê,
 Uiva longe, muito ao longe, 
Lá no fundo, sob a lua indiferente, 
Como se o som  subisse  do fundo do inferno
Quando a geada cai, nas noites de inverno.

[Tradução livre do poema de Maurice Carême, Quand la nuit gèle]


sábado, 27 de janeiro de 2018

Apesar de...

                                                                  Uma das coisas que aprendi
                                                                   é que se deve viver apesar de

Apesar de, se deve comer
Apesar de, se deve amar
Apesar de, se deve morrer


Inclusive muitas vezes
é o próprio apesar de 
que nos empurra para a frente


Foi o apesar de que me deu
uma angústia que, insatisfeita,
foi a criadora da minha própria vida.

(Clarice Lispector)

sábado, 18 de novembro de 2017

"Despedidas"...


António Nobre (1867-1900)
.................................................
...................................................
Ó morte, minha amiga de outrora,
Que fazes aí, há mais d' uma hora?!
Queres-me? Ah, sim?
Cortei as relações contigo.
Oh, vai-te! Já não sou teu amigo,
Nem tu de mim!

..........................................................
................................................................

......................«Repara como há luz 
No céu, mesmo de noite. A luz d' uma alegria,  
À noite do teu céu, também virá um dia.
Anda daí comigo; não ouves como o vento 
Desfolha sem piedade os choupos do convento?!»



Tantas folhas pelas ruas... que me importa;
São mais desgraças a bater-me à porta.

«Oh, verga a tua alma, tão alta como os astros
Que roçam pelas ondas e vão também aos astros.»

António Nobre, in Despedidas(1895-1899)

«Não há livro mais nosso que o Só, nem poeta mais português que António Nobre. Ele trouxe a linguagem poética ao nível da fala comum, fazendo da poesia o milagre de uma conversa à lareira.»
Vitorino Nemésio, in: O Só  de António Nobre, artigo


domingo, 2 de julho de 2017

"De sua natureza murcham rosas..."




                                                                                            [20-11-1928]
Nem da erva humilde se o Destino esquece.
Saiba a lei o que vive.
De sua natureza murcham rosas
E prazeres se acabam.
Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos?
Nem nós os conhecemos


Fernando Pessoa/-Obra Poética -Ficções do Interlúdio- Odes de Ricardo Reis








domingo, 6 de julho de 2014

Primavera outonal...


nasceu o dia num resplendor de bruma
céu e nuvens tamizam a claridade
a chuva cai direita em melodia doce
e ouve-se silêncio nas ruas da cidade.

pensamentos/desejos são apenas espuma
de dias a passar morrendo esmorecidos;
calo em mim cansaços de sentidos
e perco longe o olhar nas linhas do horizonte.

está mais um domingo a passear pelo monte
e mais e mais uma saudade quebrada pela bruma
se quebra em mim em eterno queixume
fantasiada de outono
 diluída em espuma
amante da solidão
 prisioneira das aves
carente - estática - estremecida
numa aura de espantos breves e suaves
que ligam pouco à vida...

de há muito orfã do mar
 inveja só das aves o voar.

SG - (julho-2014)

quinta-feira, 20 de março de 2014

O velho palácio...


Houve outrora um palácio, hoje em ruínas,
Fundado numa rocha, à beira-mar...
Donde se avistam lívidas colinas,
E se houve o vento nos pinhais pregar.
Houve outrora um palácio, hoje em ruínas...

Nesse triste palácio inabitável,
As janelas sem vidros, contra os ventos,
Batem, de noite, em coro miserável,
Lembrando gritos, uivos e lamentos.
Nesse triste palácio inabitável... 

Só resta uma varanda solitária,
Onde medra uma flor que bate o norte,
Sacudida de chuva funerária,
Lavada de um luar branco de morte.
Só resta uma varanda solitária...

Como nessa varanda apodrecida
Em minha alma uma flor também vegeta...
Toda a noite dos ventos sacudida,
Íntima, humilde, lírica, secreta,
Como nessa varanda apodrecida....

Gomes Leal

sexta-feira, 14 de março de 2014

Nocturno(s) VI e VII


Há um inverno nas copas extáticas
e as estrelas acenderam-se de um vento alto
que azulou o céu
de um azul que a noite foi roendo consigo.

***



***
Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.

Jorge de Sena

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Demora...


Demoramos depois
de cada passo
       cada palavra que temos
                                                                    na garganta

                                                                    Cada cidade
                                                                     ou mesmo cada lágrima

Demoramos depois de
cada largo
 um só jardim nos olhos
que não espanta

      E um candeeiro calado
                                                                    em cada canto
                                                                    e o vento selado
                                                                    sobre os ombros
          como a saudade marcada
                                                                    na garganta
                       e os dedos fincados sobre o sono

E cada hora em cada
                                                                   passo
dado
                             e todo o medo transformado em raiva

     e toda a dor dos olhos
 só tem água

Não não é apenas
    aquilo que pensamos
            que nos devora enquanto
                                                                     demoramos

Maria Teresa Horta, Jardim de Inverno


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Port Wine...


O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape- Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.
[...]

Em Londres os lords e em Paris os snobs, 
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
 acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue, 
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! - ou morre.

Joaquim Namorado - A Poesia Necessária (1966)

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Choveu...


Quando eu morrer, a terra aberta
Me beba de um trago
E esqueça.
Aos deuses minha oferta
É levar o que trago:
Eu, dos pés à cabeça.

Assim, com ervas altas,
Acabam os que começam.
Que Deus nos perdoe as faltas!
Dizem: "a terra que nos come":
Eu digo: "a que nos bebe" - e basta.
Somos só água que se some:
Choveu - e fomos
Na vida gasta.

Vitorino Nemésio, Eu, Comovido a Oeste

terça-feira, 18 de junho de 2013

Bola de sabão...


« 24 de Julho de 1858 - ... Para que serve viver? perguntava a mim próprio ante-ontem; e não sabia muito bem responder senão que é a vontade de Deus. Durante parte do dia entretive-me a fazer bolas de sabão. Não será o que também faço toda a vida? E a minha própria vida será coisa diferente de uma bola colorida, flutuante e oca, um sonho, uma aparência cujo brilho efémero e o volume quimérico se resolvem numa simples lágrima, num sopro vão? »

Ariel

domingo, 2 de junho de 2013

Desolação....


«Quinta, 8 de Outubro

Sinto a desolação horrível, trágica, de quem já não pode iludir-se com nada e encontra em quanto existe a infinita miséria. E sinto a verdade d' aquelas palavras que às vezes digo como uma síntese do meu estado de espírito:
  - Sofro da horrível desgraça do homem que olha para a vida e sente que já não pode ser enganado...»

Manuel Laranjeira, in Diário Íntimo -1908-1909

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Ao longe...


Ao longe, ao luar,
No rio uma vela
Serena a passar,
Que é que revela?

Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.

Que angústia ,me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa
Na noite que fica.

Fernando Pessoa, 
Cancioneiro