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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Canção...



Lisboa. Cadeia do Aljube, 30 de Dezembro de 1939

À janela da casa,
Ave só na lembrança,
Já nem levanta a asa 
Que a mãe lhe deu de herança.

A sua dor é clara: 
Bate-lhe o sol em cheio;
Um sol branco, que vara
Tudo de meio a meio. 

Não é sede nem fome
(Água tem ela à mão,
E comida, que não come),
Doença má também não.

Falta-lhe a liberdade.
Só essa dor lhe dói.
Mas só por ela há-de 
Não ser o ser que foi.

Miguel Torga, in Diário I, 1940


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