E de repente tudo se afastou - rostos, árvores, o mar,
objectos, acontecimentos, a poesia - longe,mais
longe,
na margem doutra costa - ele via-os, não os via.
Eram eles
que tinham partido e o deixaram, ou ele? A morte,
imóvel, habitava-o até à ponta das unhas. A noite -
ouvia dentro de si esta imensa imobilidade. No entanto,
antes de dormir e ao acordar, continuava a lavar
com regularidade os dentes com a velha escova usada,
mostrando assim, todo branco e limpo, o seu último
sorriso.
Eugénio de Andrade, in Trocar de Rosa


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