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domingo, 21 de abril de 2019

Aleluia ...


Não foi milagre ressurgir, Senhor, 
Num dia natural de primavera.
Tudo ressurge quando tem calor. 
É por calor que toda a morte espera.

Milagre era acordar no inverno, era 
Subir da cova frio como a dor,
E, com neve nas dobras da quimera, 
Mostrar a Madalena a carne em flor. 

Contra a seiva da vida e a sua lei 
É que valia a pena demonstrar...
Viver dentro da morte é que era um salto!

Assim, vejo-te apenas como sei: 
Um corpo que parou de levedar,
E veio à tona ver o céu mais alto.

Miguel Torna, in Poesia Completa I

Domingo

Domingo, dia sagrado
A não sei que aspiração
De ter o corpo lavado
Desta nossa condição...
Tudo a rezar pela alma
Que não tem nem pode ter...
Tudo a pedir uma calma
Que era um crime conhecer.
 
Parece a roda da lua
Com vontade de rezar
Na quimera de uma rua
Onde às vezes faz luar.

Miguel Torga, in Poesia Completa I

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Canção...



Lisboa. Cadeia do Aljube, 30 de Dezembro de 1939

À janela da casa,
Ave só na lembrança,
Já nem levanta a asa 
Que a mãe lhe deu de herança.

A sua dor é clara: 
Bate-lhe o sol em cheio;
Um sol branco, que vara
Tudo de meio a meio. 

Não é sede nem fome
(Água tem ela à mão,
E comida, que não come),
Doença má também não.

Falta-lhe a liberdade.
Só essa dor lhe dói.
Mas só por ela há-de 
Não ser o ser que foi.

Miguel Torga, in Diário I, 1940


sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

No canto dum galo...

Encontro


Quando o galo cantou na escuridão
Como um claro rumor que afasta o medo,
É que ele viu que chegara a ocasião
E que findara enfim o seu degredo.

Fosse qual fosse o dedo
Que lhe apontava a vida, era de mão
Que conhecia o mágico segredo
De negar e rasgar a solidão.

- Mundo! - disse ele então. - Mundo de todos!
Mundo de estrelas, de ilusões, de lodos,
Onde nada é sozinho nem disperso.

Mundo! Sou eu aquela voz perdida,
Que vem juntar-se a ti, arrependida,
Trazendo a humana gratidão de um verso.

Miguel Torga, in Poesia Completa I




domingo, 17 de setembro de 2017

** Solidão Criadora**

Solidão...

Set./1949


Dorme e sonha a meu lado
Tão alheia de mim
Que me sinto um amante abandonado...
Acordá-la?
Gritar?
O poeta é uma angústia que se cala,
A cantar.



Miguel Torga,in Poesia Completa I

sábado, 15 de junho de 2013

Domingo....


Domingo, dia sagrado
A não sei que aspiração
De ter o corpo lavado
Desta nossa condição...

Tudo a rezar pela alma
Que não tem nem pode ter... 
Tudo a pedir uma calma
Que era um crime conhecer.

Parece a roda da lua
Com vontade de rodar 
Na quimera de uma rua
Onde às vezes faz luar. 

Miguel Torga, in Libertação - 1944

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Lisboa...


A luz vinha devagar
Através do firmamento...
Vinha e ficava no ar,
Parada por um momento,
A ver a terra passar
No seu térreo movimento.

Depois caía em toalha
Sobre as dobras da cidade;
Caía sobre a mortalha
De ambições e de poalha,
Quase com brutalidade.

O rio, ao lado, corria
A querer fugir do abraço:
Numa vela que se abria,
E onde um sorriso batia,
O mar já era um regaço.

Mas a luz podia mais,
Voava mais do que a vela;
E o Tejo e os areais
Tingiam-se dos sinais
De uma doença amarela.

Ardia em brasa o Castelo,
Tinha febre o casario;
Cada vez mais nosso e belo,
O profeta do Restelo
Punha as sombras num navio...


Nas casas da Mouraria,
Doirada, a prostituição
Era só melancolia;
Só longínqua nostalgia
De amor e navegação.

Os heróis verdes da História
Tinham tons de humanidade;
No bronze da sua glória
Avivava-se a memória
Do preço da eternidade.

Nas ruas e avenidas,
Enluaradas de espanto,
Penavam, passavam vidas,
Mas espectrais, diluídas 
Na cor maciça do encanto.

E a carne das cantarias,
b
Branca já do seu condão,
Desmaiava em anemias
De marítimas orgias
De um fado de perdição.

Miguel Torga

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Amanhecendo...


Dia

Amanhece.
O poeta de penas já cantou.
Já nos seus altos versos adormece
O fantasma da noite que passou.

Como um halo de sonho acontecido,
A luz das coisas vai nascendo em nós;
Desenha-se na sombra o pressentido
E a vida já tem gestos e tem voz.

Já novamente o sol doira a frescura
Da relva verde e do lençol de linho.
Outra vez há ternura
De gente a ver-se e de se ver caminho.

Miguel Torga,  Diário II - 1943

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Terra sã...


Mas a terra está sã!
O mar é o grande mar de outrora,
o sol, como no Quaternário, amadurece!
E o sentido de tudo,
mudo,
nem no fundo das noites adormece!

O mundo acorda como no Princípio!
Eternamente casta e delicada,
a luz vai-se despindo do seu véu;
e, nua,
mostra o seu corpo astral da cor da Lua,
e os seus olhos astrais da cor do céu. 

A vida, deslumbrada, vê.
E não há goivo triste,
nem camélia a sorrir,
que não olhe o milagre e lhe não dê
o que restava ainda por abrir.

Depois, o fruto, que concentra em si
a doçura de ser,
liricamente cai.
Mas, no dia que vem,
a eterna terra, a velha terra-mãe,
leveda o fruto e o rebento cai.


Miguel Torga, in Lamentação

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

"Brinquedo"...


Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga

sábado, 22 de setembro de 2012

Rendição...


Vem, camarada, vem
Render-me neste sonho de beleza!
Vem olhar de outro modo a natureza
E cantá-la também!

Ergue o teu coração como ninguém;
Fala de outro luar, doutra pureza;
Tens outra humanidade, outra certeza:
Leva a chama da vida mais além!

Até onde podia, caminhei.
Vi a lama da terra que pisei,
E cobri-a de versos e de espanto.

Mas, se o facho é maior na tua mão,
Vem, camarada irmão,
Erguer sobre os meus versos o teu canto.

Miguel Torga,  Libertação, 1944