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sábado, 29 de junho de 2013

Antero de Quental - pessimismo...


« O pessimismo de Antero é mais alegre que o seu optimismo e a sua fé mais desoladora do que a sua descrença.
É que - creio ser o primeiro a observá-lo - aquelas  pessoas a quem é mais conforme a tristeza do que a alegria, quando por acaso alegres (realmente, presumo) não estão em si como na tristeza. Isto dá-se com outras faculdades. Edgar Pöe, por exemplo, é mais contente no seu terror do que na sua alegria.
[...]
Com Antero de Quental se fundou entre nós a poesia metafísica, até ali não só ausente, mas organicamente ausente, da nossa literatura.[...]» 

Fernando Pessoa, texto não datado, publicado in Colóquio-Letras, nº 8, Julho de 1972 (excertos)

A um Crucifixo

Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: há Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!
Porque morreu sem eco o eco dos teus passos,
E da tua palavra (ó Verbo) o som fremente?
Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojarás de novo à campa os membros lassos... 
Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céu, frio como um sudário...
                                                                  E agora, como então, verás o mundo exangue,
                                                                  E ouvirás perguntar - de que serviu o sangue
                                                                 Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário?

                                                                                                                 Antero de Quental, Sonetos

quarta-feira, 26 de junho de 2013

"Barataria"...


«1º de Junho - 1880
[...] Isto aqui está absolutamente podre, ridículo. estúpido. Fujo de ler jornais e de falar com pessoas que os lêem, para me esquecer de que vivo nesta capital da Barataria. Como Lisboa seria linda se fosse uma simples cidade de província! Mas estes ares de corte, estes políticos, estes burocratas estragam e maculam os mais belos dons da natureza! 
                                                                [...]   
                                                                                                        Anthero»

 Carta de Antero de Quental a Alberto Sampaio (excerto)