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domingo, 9 de junho de 2013

Valor do exemplo...


« Não é a Razão que governa o mundo, mas o Sentimento. 
A ideia não tem poder algum sobre as almas, enquanto se não transforma em Sentimento.

A razão pode inspirar as naturezas superiores, mas enquanto não acha o caminho da sensibilidade os seus raciocínios e conclusões em nada influem. Isso sucede em maior grau com as mulheres, mais sensíveis e mais impressionáveis. Assim como com as crianças. 
[...]  
O exemplo é o melhor instrumento de educação. Desde a infância, a criança segue-o inconsciente ainda e, mais tarde, embora mude de meio e este seja o contrário daquele em que viveu, sente uma repulsa natural pelo que não é certo e as noções recebidas na infância, cuja acção era já grande e eficaz, transformadas em instinto, continuam a exercer sobre ela a sua acção benéfica.
A criança que nunca viu senão maus exemplos, que nunca ouviu senão más palavras, que respirou, desde que nasceu um ar empestado de maus costumes, não pode escapar ao contágio de todo esse mal. 
Quem lhe ensinou o bem se ninguém lho revelou? Se ninguém lhe mostrou uma só virtude? Se entre vícios cresceu e se formou?
[...]
A obra de civilização, se a contemplarmos no seu conjunto, é comovente. Nela constatamos a luta secular do homem contra a animalidade de que provém e à qual tende sempre a descer, pois mais depressa se aprende e imita o mal do que o bem e a virtude.
Daí que essa obra de incessante aperfeiçoamento espiritual deva ser universal e a sua acção moralizadora enérgica e tenaz. A filosofia coroa-a com as palavras mais belas. A ciência sanciona-a como a solução do problema mais árduo imposto ao homem(...).»

in Folhas Esparsas, de M. Cottas - 1943

terça-feira, 14 de julho de 2009

Fim de aulas por Alberto Gonçalves, Sociólogo

Fim de aulas

As provas de avaliação sempre suscitaram a repulsa dos "pedagogos" modernos. O argumento era o de que semelhantes testes não reflectem o que os alunos realment sabem. Os exames nacionais aplicados pelo corrente Ministério da Educação demonstram que os pedagogos "modernos" tinham razão: as notas aproximam-se da excelência e os alunos não sabem nada.
Isto sucede porque a cada ano os exames se vão adequando ao QI de Forrest Gamp. Por enquanto, a subida nas respectivas médias só eleva as crianças indígenas a lugares honrosos nas tabelas comparativas internacionais. Mas quando o exame de Matemática do 12º se resumir a pintar com guache o algarismo "8", não duvido que o topo das tabelas será nosso. Parece bom? Se calhar, é bom. É certo que, aqui ou ali, duas dúzias de líricos protestam as quebras nos padrões de exigências e avisam que o Estado está a fabricar idiotas. E depois? Não compete ao Estado democrático formar génios: compete-lhe, como prometia a Declaração de Independência americana, criar condições para a felicidade das pessoas. E as pessoas, pelo menos no que toca a ensino, estão felizes.
O ministério congratula-se com o brilharete estatístico. As crianças também andam contentes e, embora exibam dificuldades em se exprimir numa língua existente, surgem nos "telejornais" a considerar "bué de fácil" os testes de Português. E a Confap, uma coisa que diz confederar as associações de pais, aplaude, ressalvando que os exames ainda são um nadinha exigentes e que, em vez de se ocupar com trivialidades, a escola tem de investir na "componente de apoio à família", leia-se armazenar por tempo indefinido os meninos que os progenitores não aturam.
A experiência própria, junto dos pais (não confederados) que conheço, confirma a tendência. Com excepções, a maioria aceita com jovialidade que, no final da "primária" (ignoro a designação actual), a descendência não consiga identificar o País num mapa ou demore meia hora a ler um rótulo de Nestum. Suponho que, no final do "secundário", a descontracção face a estes ligeiros óbices permaneça igual. A única função que a generalidade dos pais exige à escola é a de ama-seca, capaz de lhes devolver os petizes ao fim do dia em perfeita saúde e, o que não custa, com um boletim escolar limpo de reprovações, castigos e demais maçadas. O pormenor de os cérebros dos petizes continuarem limpos de instrução não perturba milhões de envolvidos.
E porque deverá perturbar um punhado de observadores distantes? Numa perspectiva racional, de facto não há motivo para que a escola preste serviços não requisitados pela sociedade em que se insere. Se quase ninguém o deseja, o ensino tradicional perdeu a razão de ser, e por isso até estranhei ver o eng. Sócrates, na entrevista à SIC, todo orgulhoso por oferecer às crianças "competências informáticas" e fluência em Inglês. Logo a seguir, porém, lembrei-me que a informática corresponde aos joguinhos do Magalhães e que o Inglês é provavelmente técnico. A notável carreira do eng. Sócrates mostra que não é preciso muito mais.

Alberto Gonçalves, in Juízo Final [rev. Sábado - 25/06/2009]

N.B.: O boldo e o itálico são da responsabilidade do autor do blogue.