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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Não foi por mal...


Naufrágio

Não era por mal...
A onda que vinha 
não vinha por mal.

Mas veio, mas veio...
E logo a barquinha
partiu pelo meio.


Nem homens, nem velas.
- : Quanto a bordo ia,
com fé abalara,
morreu já sem ela.

Mas se a onda veio,
não veio por mal:
era irmã daquela
que chegou à praia,
que embala barquinhos
de meninos pobres.

Os meninos brincam.
Navegam em barcos
feitos de cortiça,
feitos de jornal.
Quase à mesma hora,
longe, os pais naufragam
 sem nenhuma ajuda.

Mas não é por mal...

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa esperança

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Rigor...




A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo - 

Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer coisa de amor,
Ainda que o amor seja mudo.

Fernando Pessoa, Poesias Coligidas/Inéditas - !919-1935

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Amar a criança...

«A criança não pode escolher por si, nem tem experiência, nem espírito crítico para se defender de uma má leitura.»

«O primeiro critério que devemos seguir na escolha de um livro infantil é a qualidade(...). O livro infantil deve ser sensível e apurado para apurar e afinar a sensibilidade da criança(...). Deve ser um livro inteligente para desenvolver e esclarecer a inteligência e apurar o pensamento. Deve alimentar a imaginação, poi o homem não se cria só através da necessidade, mas também através do desejo. E o livro infantil deve acordar a consciência, deve acordá-la agudamente, inequivocamente, para que a criança desenvolva o sentido da responsabilidade, da liberdade e da escolha. Um bom livro não é necessariamente um livro didáctico, mas é sempre necessariamente um livro educador.»

Sophia de Mello Breyner Andresen - excertos  de entrevista ao Diário de Lisboa (1964)

domingo, 9 de junho de 2013

Valor do exemplo...


« Não é a Razão que governa o mundo, mas o Sentimento. 
A ideia não tem poder algum sobre as almas, enquanto se não transforma em Sentimento.

A razão pode inspirar as naturezas superiores, mas enquanto não acha o caminho da sensibilidade os seus raciocínios e conclusões em nada influem. Isso sucede em maior grau com as mulheres, mais sensíveis e mais impressionáveis. Assim como com as crianças. 
[...]  
O exemplo é o melhor instrumento de educação. Desde a infância, a criança segue-o inconsciente ainda e, mais tarde, embora mude de meio e este seja o contrário daquele em que viveu, sente uma repulsa natural pelo que não é certo e as noções recebidas na infância, cuja acção era já grande e eficaz, transformadas em instinto, continuam a exercer sobre ela a sua acção benéfica.
A criança que nunca viu senão maus exemplos, que nunca ouviu senão más palavras, que respirou, desde que nasceu um ar empestado de maus costumes, não pode escapar ao contágio de todo esse mal. 
Quem lhe ensinou o bem se ninguém lho revelou? Se ninguém lhe mostrou uma só virtude? Se entre vícios cresceu e se formou?
[...]
A obra de civilização, se a contemplarmos no seu conjunto, é comovente. Nela constatamos a luta secular do homem contra a animalidade de que provém e à qual tende sempre a descer, pois mais depressa se aprende e imita o mal do que o bem e a virtude.
Daí que essa obra de incessante aperfeiçoamento espiritual deva ser universal e a sua acção moralizadora enérgica e tenaz. A filosofia coroa-a com as palavras mais belas. A ciência sanciona-a como a solução do problema mais árduo imposto ao homem(...).»

in Folhas Esparsas, de M. Cottas - 1943

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Crianças...


Dia e noite
as notícias estão chegando
telegráficas e sensacionais
dos confins do mundo.

 - Sobre destroços de casas e de árvores
crianças chinesas boiando à deriva
na corrente do rio Amarelo transbordado!

- Poliomielite grassando 
nas províncias argentinas!

- Socorro tratamento urgente
para o menino das montanhas dos Abruzos
perdendo a vista pouco a pouco!

- Agasalhos abrigos alimentos
para as crianças húngaras foragidas
do esmagamento e das labaredas soviéticas!

Dia e noite
as agências dos jornais estão telegrafando
a rádio espalhando o alarme!

[...]

Jorge Barbosa,  in Claridade, nº 8 - 1958

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Na Galileia...


Jesus, quando não sofria ainda aquela áspera melancolia que lhe deu mais tarde a presença de Jerusalém branca e dura, era um meigo rabi que percorria perpetuamente, no infinito enlevo do seu sonho, a sua tranquila e humana Galileia, ora a pé, ora num desses pequenos burros, que têm os olhos tão grandes e tão doces e que vêm da alta Síria. Entrava nas sinagogas; e, comentando os velhos papiros da Lei, ensinava o Deus novo. Parava nos casais, sentava-se às portas, sobre os bancos encanastrados de vime, debaixo dos sicómoros. As mulheres davam-lhe mel, vinho de Safed, e diziam: «fala, rabi, fala!»
As crianças tomavam-lhe as mãos, ou puxando-lhe pelas compridas pontas do seu couffie amarrado por uma corda de pele de camelo queriam ver o fundo dos seus olhos. Os discípulos afastavam as crianças. Mas o Mestre murmurava sorrindo:
 - Deixai vir ter comigo as crianças, abençoadas são elas! elas sabem muitos segredos que os sábios ignoram.

Eça de Queirós, in Uma Campanha Alegre

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Da Memória


Branco, branco e orvalhado,
o tempo das crianças e dos álamos.

Eugénio de Andrade, Coração do Dia


quarta-feira, 29 de junho de 2011

As cegonhas...

As cegonhas.
Trazem-me o adro,
duas casas,ou três, se forem brancas,
a torre onde pousavam

lentas, eu tinha então
a idade das amoras,
o sol sufocava sobre a boca,
lembras-te?, ou o peso doutra boca,
doutra razão, já não sei,
corria à pedrada
os cães de que tinhas medo,
e fugia de ti para afagar

em segredo
o baiozinho que então namorava.

Eugénio de Andrade, Branco no Branco

sábado, 22 de maio de 2010

Ser criança




Criança que passas,
Contente e ladina,
Suspiras com graça,
Tens voz cristalina,
Após ti deixaste
Um sopro de amor;
Decerto aspiraste
Colher uma flor,
Gentil, bonitinha,
De rosto rosado,
Como uma andorinha
Em voo folgado,
Que traz a saudade
Espalha a alegria;
Jeitos de ansiedade
E melancolia...
Criança que passas,
Tão bela e risonha,
Sorris à desgraça...
E a vida sonha
Pousar nuns cabelos
Só beijos garridos,
Prender-te nos elos
De prados floridos.
Linda criancinha
De rosto fagueiro,
Escondendo asinha
Um riso brejeiro...
E a vida que corre -
- Tu sempre sonhando -
Um beijo que morre...
E tu caminhando...
E se a tua idade
Traz risos e cor,
Ignora a ansiedade,
Semeia calor!
Escuta a lição
Das rugas marcadas
Na fechada expressão
Dum rosto apontadas.
Criança crescida,
Mocidade em flor,
Não esperes da vida
Só sonhos de amor!

Sophia Guiomar, Poemetos, [29-10-1958]

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Beijinhos


Beijinhos?...
Que custam
beijinhos?!
São docinhos
Ceguinhos
Carinhos
Cheinhos
de vontade de
abraçar!...

Sophia Guiomar, Poemetos [31-08 a 01-09/2009]




quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A Borboleta



Chorava quando uma borboleta da noite queimava as asas na chaminé do candeeiro ou se esborrachava contra as lâmpadas quentes e transparentes que iluminavam as sombras da sala nas noites cálidas do verão.
E nunca apreciei o desporto de correr atrás das borboletas diurnas com uma rede, apanhá-las meio entontecidas e espetar-lhes o alfinete para as deixar secar lentamente só para mostrar uma bela colecção! Não sei porquê, mas soava-me a cobardia e crueldade e as pobrezinhas não mereciam isso. Uma borboleta é linda enquanto tem a liberdade de voar, de pousar sobre a flor, de ensaiar danças com outras companheiras no espaço que o Sol ilumina. Sem Sol não há borboletas. Só há mariposas. Estas perdem em cor e ganham em mistério...
Quando menina, cantava um pequeno poema que duas ou três décadas depois vim a descobrir pertencer a Fernando Pessoa. Era linda a melodia - de Lopes Graça, parece - e o termo mariposa soava como algo de misterioso e terno aos meus ouvidos que se deliciavam com ele e nem perguntaram na época o que objectivamente significava. As borboletas da noite, na casa da família, eram então, e apenas, borboletas da noite. E foi também por acaso, e maravilhada, que, num dia também longínquo, descobri ao que se referia. E se não perdeu em poesia, ganhou em conhecimento de mistura com uma espécie de êxtase próprio do mistério da noite.

Louca mariposa
Bate na vidraça...
Vem da noite enorme...
Vem da noite enorme
Cheia de perfume...
Fora tudo dorme...
Que silêncio enorme!

Estou a citar de memória. Ainda guardo aquela melodia lenta, quase ciciada, bem dentro de mim. Mariposa era nessa época o conjunto dos eflúvios da noite prenhe de cheiros intensos, de silêncios consentidos, do céu escuro e estrelado, com ou sem a diafaneidade do luar.
Ao varrer as varandas, de manhã, encontrava pelo chão os cadáveres macios e acinzentados, ou em tonalidades de castanho, de patinhas escuras e hirtas e uns enormes olhos salientes...
Tinha uma amiga que sentia medo delas, um terror quase repulsivo. Eu não entendia... Ria-me com os seus gritinhos histéricos e os trejeitos cheio de confusão, mas sentia vontade de lhes preparar um lindo funeral com muitas e mimosas flores. Até na morte eram lindas, macias, quase penugentas, seres a quem os olhos tinham condenado a morrer mais jovens, decerto, por pura inexperiência.
Eram o símbolo do mistério da noite perfumada, da morte não anunciada, tal como uma parte de mim que não gostava do Sol porque a Lua também era linda, não crestava a pele e o luar olhava-se de frente. Podia tornar triste um coração dorido, mas a lua não obrigava a chorar.
As borboletas são deveras lindas: alegres, ondeantes, adoráveis. Gosto de vê-las libando o néctar das flores, ainda que saiba que vão bichar a fruta e as larvas me comerão todas as folhas das roseiras enquanto se prepararem para formar casulo e dar vida a outras borboletas... São elegantes, extravagantes, muito tontas, muito coloridas, extremamente belas!
... Mas continuo a sentir muito carinho, muito encantamento, muito respeito até... pelas mariposas.




sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Renoir - As meninas: "Rosa e Azul"

O quadro acima - "As meninas Cahen d'Anvers", conhecido como rosa e azul, foi pintado por Auguste Renoir em 1881. Encomendado pelo banqueiro Louis Raphael Cahen d'Anvers, pai das meninas retratadas, de nome Alice e Elizabeth, permaneceu esquecido longo tempo por não ter ficado satisfeito com o resultado, num qualquer obscuro local da casa e só muitos anos depois descoberto.
Rosa e Azul foram tons preferidos por Renoir na sua obra pictórica.. E a expressão destas duas crianças com os seus vestidos brancos com faixas largas, uma em rosa, outra em azul, são de uma delicadeza requintada, decerto interpretada pelo pintor a partir dos originais.



sábado, 25 de julho de 2009

Obsessão


Obsessão

Que forças obscuras detiveram
Os indecisos passos, na aurora
Duma vida sem culpa?

Que vozes ignotas, que segredos
Toldaram o olhar que reflectia
O fulgor da manhã?

Que secreta mão pousou no ombro,
Frágil, da perdida infância
E suspendeu o riso que floria
Nos lábios sem mentira?

Jamais o saberemos. Experientes
Dos humanos caminhos da tristeza,
Nunca mais nossos olhos conheceram
A luz que visionaram algum dia!

Luís Amaro (In «Artes e Letras» - Diário de Notícias, 1-05-19579


segunda-feira, 20 de julho de 2009

Um drama dos mais pequenos (continuação)

A campainha retiniu por toda a casa. «É o teu irmão», disse a mãe para o marido que lia o jornal. E pouco depois chegou Afonso, alto, magro e um pouco calvo apesar dos joviais quarenta anos. Cumprimentou e estranhou: " E a nocas?». A mãe foi dizendo que estava para o quarto e Afonso mimou um gesto de surpresa. «Outra sova? Que fez ela agora?»
Calmamente, a mãe negou e informou que dormia.
«Dormir?...Fenomenal! Essa é nova! E a uma hora destas?!»
«Não sei que se passou, mas parece que tem alguma coisa a ver com a revista.»
Olhando o relógio, Afonso perguntou ao irmão que novidades havia, comentou-as num ar desprendido e decidiu, «Vou acordar aquela dorminhoca.» e atravessou o corredor em direcção ao quarto da sobrinha. Pai e mãe entrolharam-se e depois ele voltou ao seu jornal e ela à sua costura. No chão, o outro filho, garoto de quatro anos, brincava com os carrinhos. Ouvia-se o som roufenho e monocórdico do rádio e, da cozinha, ouvia-se a criada em luta sonora com os pratos do jantar.
Quando, poucos minutos depois, tio e sobrinha entravam, o locutor anunciava o programa de Miguel Trigueiros, conhecido poeta e declamador. E estabeleceu-se um silêncio quase devoto no pequeno círculo familiar e uma voz agradável de homem expandiu-se no ar, ora elevando-se num grito de dor e sofrimento, ora de alegria triunfante, ora baixando-a suavemente, num cicio, emoções e sentimentos expressos com maestria e sensibilidade requintadas.
Sentada, com os cotovelos sobre os joelhos, numa atitude de atenção extrema, a adolescente escutava aquela voz que ganhava eco no mais profundo do seu ser. Aquelas palavras que lhe pareciam mágicas semelhavam-se a estrelas que refulgissem no seu íntimo e pareciam acender-lhe cintilaçõs de sonho no olhar. Mas pouco depois o encanto cessou deixando suspensa no ar a musicalidade suavíssima que se desprendia do poema. De novo a voz do locutor se ergueu, tendo como fundo uma melodia suave que foi morrendo a poco e pouco até se tornar quase imperceptível. Falava de romantismo, de poesia bucólica criada por improvisados poetas de quinze e vinte anos, fase em que todos versejam, ainda que alguns não com muita propriedade, comentando que nessas estrofezinhas cândidas e pretensiosas vibravam, quais cordas suavemente esticadas, muitos ideais e sonhos. E em jeito de consideração final acrescentava:
«É uma bela idade em que todos têm alma de poeta, ainda que o não sejam.» Esta foi a frase que mais pareceu ecoar no silêncio da sala e penetrou dolorosamente não só o cérebro, mas também o coração, da adolescente.
E Afonso olhou-a, de soslaio, cativado pelo desgosto que adivinhava.
O resto da família, cada um entregue ao seu mundo, nem se deu conta do pequeno drama que latejara a seu lado.

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[03/11/1955]

domingo, 19 de julho de 2009

Um drama - dos mais pequenos (continuação)

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A mãe, desconfiando da ausência, abriu a porta devagar e olhou admirada o vulto da filha sobre a cama. Pensou se não estaria doente porque não eram horas decentes para se dormir e aquela criatura nunca dormia. Cautelosa, aproximou-se mais, espreitou-lhe o rosto e viu lágrimas. Não lhe batera nesse dia, não a repreendera... Suspeitou de um desgosto e recordou que a notara impaciente porque o homenzinho dos jornais nunca mais chegava. Tinha-a ouvido protestar que o pobre homem levava tempo demais a fazer o troco aos fregueses, de óculos ridiculamente acavalados no nariz, sacola de pano cinzento presa ao ombro, desculpando-se que o combóio era ronceiro, nunca mais chegava... Via-se que estava impaciente para que ele acabasse a conversa e desandasse. Lembrava-se a mãe de ouvir-lhe recriminações porque a revista nunca mais chegava e, já de posse dela, fugira para o quarto... E estranhou de novo os vestígios das lágrimas e o sono àquela hora desapropriada. Antes de sair reparou na revista amarfanhada a um canto. E acabou por concluir que não devia ser nada de cuidado.
Num repente de boa vontade - não a acordou.

(Continua)

sábado, 18 de julho de 2009

Drama - dos pequenos (continuação)



Aquelas palavras magoavam-na. Doía qualquer coisa bem lá no fundo quando pousava de novo os olhos naquelas letras negras de imprensa que tanto a humilhavam. Desejava sumir-se pelo chão abaixo, transformar-se em mosquito que fosse capaz de ferrar a mão cruel que mandara imprimir aquelas palavras, mesmo que depois morresse como as abelhas, logo ali, por ter ferrado. Mas nada podia fazer para se vingar de quem lhe vibrara tão cruamente aquele golpe e apertou as mãos em desespero. Então as lágrimas começaram a rolar pelas faces, amargas, geladas. Só que não sentia que arrastassem consigo tanta amargura e precisava de fazer alguma coisa... como gritar, para tentar expulsar o peso que parecia sufocá-la.
Num repente, levantou-se e, num movimento de raiva, de impotência, amarfanhou a revista que lançou para um canto e atirou-se sobre a cama, agarrando desesperadamente a almofada onde tentou reprimir os soluços e os gritos que se lhe atravessavam na garganta contraída, num espasmo dificilmente contido.
De vez em quando fugia-lhe um queixume que logo era desesperadamente sufocado. E perdida a noção do tempo, quebrantada pelo próprio desespero, acabou por adormecer no estancar das últimas lágrimas.

(Continua)

Drama - dos mais pequenos


História amarelecida pelo tempo


...E quedou-se largo tempo a pensar, rosto contraído e , nos olhos, muito abertos, a dor física do amargo sofrimento. Tudo lhe soava como um intenso caos e aquelas palavras breves e secas pareciam ter-se-lhe gravado na memória e era iso que lhe provocava aquela dor intolerável, tão intolerável..tão intolerável, santo Deus!... palavras duras que tinham feito morrer esperanças e todos os seus pequenos-grandes sonhos de adolescente ingénua, menina de quinze anos que, numa manhã de Primavera, quisera tentar a sorte.


(Continua)





terça-feira, 14 de julho de 2009

Fim de aulas por Alberto Gonçalves, Sociólogo

Fim de aulas

As provas de avaliação sempre suscitaram a repulsa dos "pedagogos" modernos. O argumento era o de que semelhantes testes não reflectem o que os alunos realment sabem. Os exames nacionais aplicados pelo corrente Ministério da Educação demonstram que os pedagogos "modernos" tinham razão: as notas aproximam-se da excelência e os alunos não sabem nada.
Isto sucede porque a cada ano os exames se vão adequando ao QI de Forrest Gamp. Por enquanto, a subida nas respectivas médias só eleva as crianças indígenas a lugares honrosos nas tabelas comparativas internacionais. Mas quando o exame de Matemática do 12º se resumir a pintar com guache o algarismo "8", não duvido que o topo das tabelas será nosso. Parece bom? Se calhar, é bom. É certo que, aqui ou ali, duas dúzias de líricos protestam as quebras nos padrões de exigências e avisam que o Estado está a fabricar idiotas. E depois? Não compete ao Estado democrático formar génios: compete-lhe, como prometia a Declaração de Independência americana, criar condições para a felicidade das pessoas. E as pessoas, pelo menos no que toca a ensino, estão felizes.
O ministério congratula-se com o brilharete estatístico. As crianças também andam contentes e, embora exibam dificuldades em se exprimir numa língua existente, surgem nos "telejornais" a considerar "bué de fácil" os testes de Português. E a Confap, uma coisa que diz confederar as associações de pais, aplaude, ressalvando que os exames ainda são um nadinha exigentes e que, em vez de se ocupar com trivialidades, a escola tem de investir na "componente de apoio à família", leia-se armazenar por tempo indefinido os meninos que os progenitores não aturam.
A experiência própria, junto dos pais (não confederados) que conheço, confirma a tendência. Com excepções, a maioria aceita com jovialidade que, no final da "primária" (ignoro a designação actual), a descendência não consiga identificar o País num mapa ou demore meia hora a ler um rótulo de Nestum. Suponho que, no final do "secundário", a descontracção face a estes ligeiros óbices permaneça igual. A única função que a generalidade dos pais exige à escola é a de ama-seca, capaz de lhes devolver os petizes ao fim do dia em perfeita saúde e, o que não custa, com um boletim escolar limpo de reprovações, castigos e demais maçadas. O pormenor de os cérebros dos petizes continuarem limpos de instrução não perturba milhões de envolvidos.
E porque deverá perturbar um punhado de observadores distantes? Numa perspectiva racional, de facto não há motivo para que a escola preste serviços não requisitados pela sociedade em que se insere. Se quase ninguém o deseja, o ensino tradicional perdeu a razão de ser, e por isso até estranhei ver o eng. Sócrates, na entrevista à SIC, todo orgulhoso por oferecer às crianças "competências informáticas" e fluência em Inglês. Logo a seguir, porém, lembrei-me que a informática corresponde aos joguinhos do Magalhães e que o Inglês é provavelmente técnico. A notável carreira do eng. Sócrates mostra que não é preciso muito mais.

Alberto Gonçalves, in Juízo Final [rev. Sábado - 25/06/2009]

N.B.: O boldo e o itálico são da responsabilidade do autor do blogue.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Artigo publicado na revista VISÃO online

A Devida Comédia
por Miguel Carvalho

Criancinhas

A criancinha quer Playstation. A gente dá.

A criancinha quer estrangular o gato. A gente deixa.

A criancinha berra porque não quer comer a sopa. A gente elimina-a da ementa e acaba tudo em festim de chocolate.

A criancinha quer bife e batatas fritas. Hamburgueres - muitos. Pizzas - umas tantas. Coca-colas - às litradas. A gente olha para o lado e ela incha.

A criancinha quer camisola adidas e ténis nike. A gente dá porque a criancinha tem tanto direito como os colegas da escola e é perigoso ser diferente.

A criancinha quer ficar a ver televisão até tarde. A gente senta-a ao nosso lado no sofá e passa-lhe o comando.

A criancinha desata num berreiro no restaurante. A gente faz de conta e o berreiro continua.

Entretanto, a criancinha cresce. Faz-se projecto de homem ou mulher.

Desperta.

É então que a criancinha, já mais crescida, começa a pedir mesada, semanada, diária. E gasta metade do orçamento familiar em saídas, roupa da moda, jantares e bares.

A criancinha já estuda. Às vezes passa de ano, outras nem por isso. Mas não se pode pressioná-la porque ela já tem uma vida stressante, de convívio em convívio e de noitada em noitada.

A criancinha cresce a ver Morangos com Açúcar, cheia de pinta e tal e torna-se mais exigente com os papás. Agora já não lhe basta que eles estejam por perto. Convém que se comecem a chegar à frente da mota, no popó e numas férias à maneira.

A criancinha, entregue aos seus desejos e sem referências, inicia o processo de independência meramente informal. A rebeldia é de trazer por casa. Responde torto aos papás, põe a avó em sentido, suja e não lava, come e não limpa, desarruma e não arruma, as tarefas domésticas são "uma seca".

Um dia, na escola, o professor dá-lhe um berro, tenta em cinco minutos pôr nos eixos a criancinha que os papás abandonaram à sua sorte, mimo e umbiguismo. A criancinha, já crescidinha, fica traumatizada. Sente-se vítima de violência verbal e etc. e tal.

Em casa, faz queixinhas, lamenta-se, chora. Os papás, arrepiados com a violência sobre as criancinhas de que a televisão fala e na dúvida entre a conta de um eventual psiquiatra e o derreter do ordenado em folias de hipermercado, correm para a escola e espetam duas bofetadas bem dadas no professor «que não tem nada que se armar em paizinho, pois quem sabe do meu filho sou eu».

A criancinha cresce. Cresce e cresce. Aos 30 anos ainda será criancinha, continuará a viver na casa dos papás, a levar a gorda fatia do salário deles. Provavelmente, não terá um emprego. «Mas ao menos não anda para aí a fazer porcarias».

Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais, das escolas em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha?

Pois não, bem sei. Estou apenas a antecipar-me. Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao hospial com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo. E então teremos muitos congressos e debates para nos entretermos. [19-06-2009]