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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

«Olhei atento a estrada»...


[11.10.1934]

Na véspera de nada
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.


Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.

Fernando Pessoa, Inéditos




terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Litania...


LITANIA PARA O NATAL DE 1967

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num portão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto 
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo

David Mourão Ferreira, Lira de Bolso

A  todos os amigos desejo FELIZ NATAL!

sábado, 22 de dezembro de 2012

«Em breve...»


Em breve
um estranho baterá à nossa porta.

Não lhe recusemos a entrada...
Ele nos trará o pão e a paz
e nos dará de beber água clara.
As suas mãos
serão frescas, leves e brandas...

Em breve
um estranho baterá à nossa porta
e nós lhe morderemos a mão 
 que nos acarinhará!

Não lhe recusemos a entrada...


Tomaz Kim, Para a Nossa Iniciação

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Fortuna injusta...


A Fortuna e o mendigo - Alexey Markov Tarasovich

Eu cantei já, e agora vou chorando
O tempo que cantei tão confiado;
Parece que no canto já passado
Se estavam minhas lágrimas criando.

Cantei; mas se me alguém pergunta quando,
Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado,
Que o passado por ledo estou julgando.

Fizeram-me cantar, manhosamente,
Contentamentos não, mas confianças;
Cantava, mas já era ao som dos ferros.

De quem me queixarei que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças,
Onde a Fortuna injusta é mais que os erros?

Luís de Camões, Sonetos
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