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domingo, 26 de maio de 2019

..."fiquemos mudos"...




[29-08-1915]
Bocas roxas de vinho,
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa;

Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos mudos, 
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.

Antes isto que a vida
Como os homens a vivem,
Cheia da negra poeira 
Que erguem das estradas.

Só os deuses socorrem
Com seu exemplo aqueles
Que nada mais pretendem
Que ir no rio das coisas.

Fernando Pessoa / Ficções do Interlúdio, in Odes de Ricardo Reis




quinta-feira, 23 de maio de 2019

Conta-me contos...

[23-05-1916]
Não sei, ama, onde era,
Nunca o saberei...
Sei que era primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha, 
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)


E o jardim tinha flores 
De que não me sei lembrar... 
Flores de tantas cores.... 
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...)


Qualquer dia viria
Qualquer coisa a fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
( Filha, o resto é morrer...)


Conta-me contos, ama... 
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama 
Que eu fui nessa solidão...

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

«Olhei atento a estrada»...


[11.10.1934]

Na véspera de nada
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.


Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.

Fernando Pessoa, Inéditos




quinta-feira, 2 de novembro de 2017

«Chove?»...


Chove? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia 
Em que o ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia?


Onde é que chove que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
 Ó céu azul, chamar-te meu...

E o escuro ruído da chuva 
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

Foto Rick Forrestal

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... e a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuto, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...

Quando é que eu serei da tua cor,
Do teu plácido e azul encanto,
Ó claro dia exterior, 
Ó céu mais útil que o meu pranto?

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

sábado, 19 de agosto de 2017

"Ausência"...


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo. 
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.


E sinto-a, branca, tão pegada,
Aconchegada nos meus braços,
Que rio, danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência, essa ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.



Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Olvido...



Desce por fim sobre o meu coração
O olvido. Irrevocável. Absoluto.
Envolve-o grave como véu de luto.
Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.

A fronte já sem rugas, distendidas
As feições, na imortal serenidade,
Dorme enfim sem desejo e sem saudade
Das coisas não logradas ou perdidas.

O barro que em quimera modelaste
Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor...
Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste...

Ias andar, sempre fugia o chão,
Até que desvairavas, do terror.
Corria-te um suor, de inquietação...

Camilo Pessanha,  Clepsidra

domingo, 20 de outubro de 2013

Alma Perdida


Deus cria as almas aos pares;
Cada um dos seus olhares
É um casal que voou:
Às vezes cruzam os ares
Essas pombinhas o voo...
Mas Deus criou-as aos pares!

Partindo juntas de um ponto
Cuidam também que de pronto
Se tornam a ajuntar;
Mas andam almas sem conto
No mundo à busca de par...
Partindo juntas de um ponto!

A minha irmã, não sei dela!
Ao avistar, de uma estrela, 
Um filho ao colo da mãe...
Uma graça como aquela,
Só contemplando-se bem...
E a minha irmã não sei dela!

Levado daquele encanto
Pelo afecto mais santo
E mais profundo que há,
Não me lembrou se entretanto
Minha irmã ficava lá...
Levado daquele encanto!

Pobre de uma alma perdida
De uma irmã nesta vida,
Que é um contínuo gemer!
É uma noite comprida
Sem nunca lhe amanhecer...
Pobre de uma alma perdida!

Ainda quem sempre espera
Achar a alma sincera
Que Deus lhe deu por irmã...
Talvez ache a companheira,
Por quem suspira, amanhã...
Feliz de quem sempre espera!

João de Deus, Campo de Flores

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Gotas...


Caem,
gordas, sonoras, 
monótonas pingas de chuva,
 - espaçadas -
e indolentes
vão marcando uma toada:
ping
 pang  
 ping 
pang,
as pingas
da chuva de Outono pardo.
Espapaçada
a terra mole absorve 
as vagas de chuva densa
que lenta
vai caindo,
em pingas grossas, 
sonoras.
E ao cair,
a chuva bate o compasso
com o som dum contrabasso...
ping
 pang
ping
 pang

Adolfo Casais Monteiro. Poemas do Tempo Incerto (1934)



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Clepsidra


Epígrafe

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
lentas gotas de som no relógio da torre,
fio de areia na ampulheta vigilante,
leve sombra azulando a pedra do quadrante,
 - assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?  
Procuremos somente a Beleza, que a Vida
é um punhado infantil de areia ressequida,
um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...


Eugénio de Castro (1869-1944)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Silêncio...


Amo o silêncio e as vozes que insinuam,
Meigas ciciam, musicais, veladas,
Fracas, serenas, pálidas, cansadas,
Doces palavras que no ar flutuam.

Amo o silêncio e a luz difusa... E amo
A tarde cor de cinza, a chuva calma,
E o mar sem ondas, liso como a palma
Da minha mão aberta... E em cada ramo

Das árvores sem folhas, amo os verdes
Musgos pendentes, flácidos, em tiras...
Assim, minh' alma extática, suspiras,
Meu coração tranquilo, assim te perdes!

Rude fragor do mundo, sombra fria,
Passa de largo! Não me acordes, não!
Deixa correr a fonte da ilusão,
Enche-me a vida de melancolia...

Cabral do Nascimento, Cancioneiro

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Hora de partir...


A hora da partida soa quando
Esmorece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Sophia de Mello



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Curto espaço...


Neste curto espaço entre nós e a morte
tão mal gastamos nossa longa despedida!

......................................................

Neste curto espaço entre nós e a morte,
onde me vais perdendo,
onde te vou buscando,
nosso amor se vai embora alimentando
de despedida;

não porque morra o tempo em teus braços,
mas a vida.

Vítor Matos e Sá , in Horizonte dos Dias

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

«Despedida»...


Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

Eugénio de Andrade, Ostinato Rigore