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quinta-feira, 11 de julho de 2019

**Ramblin' Rose** - Acker Bilk

                         

Um sorriso para Cibele

Aqui não há nada, Cibele*,
A não ser uma alameda estreita
com renques de flores à esquerda e à direita.

As flores são daquelas de que eu não gosto, Cibele.
Pretensiosas.
Zínias, dálias, crisântemos, margaridas e rosas.
As flores de que eu gosto são das que ninguém planta nem semeia,
daquelas que a gente passa e diz:« Olhe, faz-me o favor.
sabe-me dizer como se chama esta flor?»

Não gosto delas, não,
mas à falta de melhor, Cibele,
é nelas que cevo a minha solidão.

Todas as manhãs, quando aqui passo para as ver
acaricio-as à flor da pele
e balbucio as palavras que ficaram por dizer.

Assim se vai passando o tempo, Cibele.

António Gedeão, in Poesias Completas

Cibele* - deusa romana da natureza selvagem, da fertilidade, da criação.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Contradição aparente...


Quisera adormecer
como a criança acorda, 
à beira de outro tempo, que é o nosso.

Só quero o que não posso.

Jorge de Sena, in 40 anos de servidão

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Não foi por mal...


Naufrágio

Não era por mal...
A onda que vinha 
não vinha por mal.

Mas veio, mas veio...
E logo a barquinha
partiu pelo meio.


Nem homens, nem velas.
- : Quanto a bordo ia,
com fé abalara,
morreu já sem ela.

Mas se a onda veio,
não veio por mal:
era irmã daquela
que chegou à praia,
que embala barquinhos
de meninos pobres.

Os meninos brincam.
Navegam em barcos
feitos de cortiça,
feitos de jornal.
Quase à mesma hora,
longe, os pais naufragam
 sem nenhuma ajuda.

Mas não é por mal...

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa esperança

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

«Olhei atento a estrada»...


[11.10.1934]

Na véspera de nada
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.


Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.

Fernando Pessoa, Inéditos




quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Um engenheiro destroçado ...



Conclusão a sucata!...Fiz o cálculo, 
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo...
Artesanato feito com sucata
A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões práticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...

Que teorias há para quem sente
O  cérebro quebrar-se, como um dente 
Dum pente de mendigo que emigrou?


Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou...

     
Soneto IV de  Barrow-on-Furness,
in "Ficções do Interlúdio", de Álvaro de Campos,
heterónimo de Fernando Pessoa

                                      
                                   







domingo, 1 de junho de 2014

Desencanto...

Edward Hopper

A vida política, enquanto farsa, é um flagelo social.
Quando , e se, fazer política passar a ser discutir ideias e intenções e depois agir no sentido do bem estar da colectividade, sem recurso a ataques pessoais ou louvaminhas nojentas dos e aos intervenientes e, mais ainda, sem recurso directo ou indirecto a compadrio tribal -  poderá considerar o pacato cidadão a sua atitude de abstenção e talvez se deixe mesmo cativar não por um partido - aí terá de mudar-se-lhe a designação - mas por um grupo disposto a tratar  da coisa pública com interesse e verticalidade e encarar de igual para igual tanto os muito pobres como os muito ricos, não desdenhando, ou desprezando, uns nem outros. Talvez consigam assim fazer com que estes últimos ponham ao serviço dos primeiros os avultados capitais, benvindos ao serviço prestado no enriquecimento humano e social dos seus semelhantes nem sempre nascidos em berços tão afortunados.
Mas com demagogias baratas e jogos de poder mais ou menos encapotados, nem pobres, nem ricos, nem remediados se deixarão convencer pelos políticos e políticas actuais. Nem de cá, nem de lá, nem de lado ou tempo algum, porque todo o homem, com ou sem grandes estudos, nasceu com olhos para ver e cabeça que pode ter aprendido a pensar. Se deixar influenciar-se por políticas será as que lhe forem exemplarmente ministradas... 
E porque será que se fala tanto de corrupção e fuga ao fisco?
Por decretos mal conhecidos, políticos fogem ao pagamento de impostos, dizem. Pelo menos entre nós. E nem toda a gente sabe disso...só conhece da política fiscal a força pesada dos impostos a que está obrigada. E não concorda.

Não concordo com a abstenção, mas compreendo-a. Tanto quanto tento interpretar a dificuldade de governação  dos governantes em momentos de crise económica. E só.


domingo, 16 de dezembro de 2012

«Natal»...


Natal fora da casa de meu Pai,
Longe da manjedoira onde nasci.
Neve branca também, mas que não cai
Na telha-vã da infância que perdi.

Filosofias sobre a eternidade;
Lareiras de salão, civilizadas;
E eu a tremer de frio e de saudade
Por memórias em mim quase apagadas...

Miguel Torga, in Diário VI 

domingo, 2 de setembro de 2012

Folha...


Era uma folha pousada
no cotovelo do vento;
e parava, deslumbrada,
entre morte e movimento.

Era uma folha: lembrava,
de tão frágil o momento
em que a vida ficava
escrava do teu juramento.

Era uma folha, mais nada.
Antes fosse esquecimento!

David Mourão-Ferreira

sexta-feira, 4 de maio de 2012

"AI!"...


Ai!
O grito deixa no vento
uma sombra de cipreste.

(Deixai-me neste campo 
chorando.)

Tudo se perdeu no mundo.
Não ficou mais que o silêncio.

(Deixai-me neste campo
chorando.)

O horizonte sem luz
está mordido de fogueiras.

( Já vos disse que me deixeis
neste campo
chorando.)

Frederico García Lorca 

domingo, 16 de outubro de 2011

Sigamos o cherne...


Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Se já não com amor, com alegria...
Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Alexandre O'Neill
(Depois de ver o filme «O Mundo do Silêncio» de Jacques-Yves Cousteau)


sábado, 28 de maio de 2011

Dispersão



Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

[...]

Desceu-me na alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

[...]

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

... ... ... ... ... ... ...

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...
... ... ... ... ... ... ...


Mário de Sá Carneiro, Poesias

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Rosto velho


Para ser velho não é preciso um rosto
Com rugas vincadas pelo tempo.
Para ser velho basta o desgosto,
A ruga da desilusão, o desalento
Que mói e rói o coração,
Pergaminho da alma lacerado
Pelo horror da vida e solidão
Manchado, fechado e enrugado,
Pisado sem dó, escravizado
À dor do amor ou da paixão.

Rosto velho, alma que chora
A mais doce ilusão
E secretamente implora
Sorrisos e afeição.
Em cada ruga uma história,
Em cada esgar um senão,
Rosto velho onde a memória
É verdade e é vitória,
Um ricto duro, um ricto terno
Choro breve como o tempo e o vento
Estranho, surdo e lento
Dum renascer fraterno.

Quem entreviu este rosto?
Quem prendeu este olhar?
Quem encontrou, nestas rugas, o mar?

Sophia Guiomar, Poemetos, 1992






quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Engano


Jurámos fidelidade:
Tu por mim e eu por ti...
Mas tu faltaste à verdade
E eu também te menti!

Porque as juras que fizemos
Não vinham do sentimento
O laço que desfizemos
Não nos causou sofrimento...

Uma afeição
Sem coração
Não tem valor!
Assim viveu
E assim morreu
O nosso amor.

Ardente paixão jurámos
Para além da eternidade.
No romance que acabámos
Faltava a sinceridade...

A mim te uniu a mentira
Mas ela nos apartou.
E de tudo o que existira
Nem a saudade ficou...

Uma afeição
Sem coração
Não tem valor!
Assim morreu
E assim viveu
O nosso amor...

M. Pissarra de Almeida




terça-feira, 10 de novembro de 2009

Rosa desditosa



- Tive centos e centos de irmãs mais belas,
Pois neste doce Abril fomos cardume,
Mas eu, p'la rara cor e p'lo perfume,
Sem vaidade, era a mais formosa delas.

Brancas, róseas, vermelhas e amarelas,
Umas feitas de neve, outras de lume,
Colhidas todas foram. Sem queixume,
Desejei-lhes benéficas estrelas.

A mim, ninguém me quis! E, folha a folha,
Já me desflora o zéfiro traiçoeiro,
A mim, virgem, que amar quisera ainda...

Anda ceguinho o Amor na sua escolha.
E abrindo os braços à que vê primeiro
Muitas vezes não vê a que é mais linda.

Eugénio de Castro



quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Serão palavras só...


Serão palavras só...


Diremos prado bosque

primavera,

e tudo o que dissermos

é só para dizermos

que fomos jovens.



Diremos mãe amor

um barco,

e só diremos

que nada há

para levar ao coração.


Diremos terra ou mar

ou madressilva,

mas sem música no sangue

serão palavras só,

e só palavras, o que diremos.



Eugénio de Andrade, Mar de Setembr0




quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Dia cinza


Dia cinza
...E o dia cinza tem nome de inquietude
se a dor intensa busca uma verdade.
Escondido, o Sol requeima e fere a imensidade
E respostas fluem estranhas,
mas ricas de virtude:
Nunca sentir
Nunca sofrer - amar a vida.
Mostrar aridez e recusa no existir.
Correr contra o tempo e amar a corrida -
- contrasenso infindo de rigor isento.
Ter e não ter domínio sobre nós
o que só depende de atitudes e de escolhas,
de ter coragem, de dizer que não em alta voz,
em viver e morrer na cinza dos afectos
o triste vazio
de infinitos discretos
quando olhar para trás
não vale nunca a pena.
Labirinto da dor
em que recordar é ser loquaz
e nunca, por nunca ser,
se não encontra paz
nem razão para viver
dentro de nós.

[2009]