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sábado, 14 de dezembro de 2013

Sorrir à vida...


« Não dê importância à idade do seu corpo físico: seja sempre jovem e bem disposto espiritualmente.
A alma não tem idade.
A mente jamais envelhece.
Mesmo que o corpo assinale os sintomas da idade física, mantenha-se jovem e bem disposto, porque isto depende da sua mentalização positiva.
Faça com que a juventude do seu espírito irradie através de seu corpo, tenha ele a idade que tiver.»

 Carlos Torres Pastorino,  in Minutos de Sabedoria

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Poço sem fundo...


Nilson Barcelli

No programa da tarde da SIC, ouvimos a viúva do Maestro Correia Martins, desaparecido de entre os vivos há uns três anos, vitimado por um ataque de coração, que confessava o seu desejo de apurar responsabilidades por serviços públicos para os quais a maioria dos portugueses descontam - e nem é tão pouco como se possa pensar para os que descontam.
A senhora queixava-se do atendimento de urgência do  INEM - 112  - que acusava de ter levado mais de uma hora para enviar socorro a um doente com um início de ataque cardíaco e que, para cúmulo do excesso de falta de zelo, obrigaram a descrever os sintomas. E como o Maestro, aflito, mas consciente, os descreveu, acharam por bem aconselhá-lo a tomar um veículo a expensas suas pois, se podia falar dos mesmos, seria por não estar tão mal assim...
Depois de uma hora e tal de espera, o Maestro Correia Martins ia seguir o conselho de se dirigir de automóvel aos serviços, quando, já com uma perna dentro deste e outra fora, entrou em agonia e morreu deitado na calçada da rua por não haver tempo para mais nada. Quando a ambulância chegou foi para verificar o óbito.
Parece que nesse dia, e a essa hora, o país futebolístico estava parado para assistir a um jogo importante entre não percebemos quem e o Futebol Clube do Porto, ou a selecção, ou algo do género, que vem a valer o mesmo. 
Diz-se que os Centros de Saúde se encontram às moscas desde que passaram a cobrar-se taxas moderadoras, ou mínimas, o que em nada nos admira. Ingenuamente, recorremos recentemente a um desses centros e em horas de expediente não nos demos conta que houvesse um médico ou enfermeiro de serviço, porque ou tinham saído para almoçar, ou para jantar, ou faziam outra coisa em outros lados menos nos serviços a que estão adstritos e do qual usufruem um salário, por parco que seja, e para o qual a seu tempo concorreram.
Já ouvi um representante da Ordem dos Médicos, ou talvez de um Sindicato de Profissionais de saúde, criticar a importação de médicos oriundos da Colômbia que se limitavam a receber um parco salário por  serviços prestados à população, retirando o lugar aos médicos residentes . Ouvimos uma autarca defender a sua opção pelos médicos colombianos, ou de qualquer outra nacionalidade, pela necessidade de bem servir as populações do seu concelho.
Ficámos com dúvidas na altura.
Porém, uma coisa nós sabemos: doença não conhece hora e há doenças súbitas que, se tratadas atempadamente, podem ser controladas. 
Agora se os serviços se encontram povoados por funcionários administrativos que aguardam impacientes a hora de saída e um outro que limpa corredores por onde ninguém circula, sem ao menos um médico ou enfermeira à vista, ou com uma dúzia de pacientes que aguardam calados a chegada de um deles que nunca está quando é preciso, temos sérias dúvidas sobre a necessidade desses serviços.
Falar em Centros de Saúde é o mesmo que falar de hospitais e da forma como lidam com urgências. A ter de pagar, quem pode recorre a serviços qualificados, por norma, privados. Contudo, até nestes a falta de atenção para com os enfermos produz vítimas. 
Que haja um só médico e um só enfermeiro, mas que estejam presentes às horas previstas, pelo menos um deles, que apelaria para um outro em caso de necessidade. 
Assim é que não dá a não ser para videirinhos que só devem marcar presença para assinar o ponto, ganhando depois um outro salário em outras frentes.
E, das duas, uma: - ou há doentes e doenças que justifiquem a existência da maioria dos serviços de saúde, ou alguém está a entrar no bolso de todos nós.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

No Centro de Saúde...


(continuação da mensagem anterior)

As funcionárias da bata branca não se interessaram pela nossa mão inchada pela infecção, nem pelas nossas explicações, mas só em saber qual o nosso médico de família. Voltámos a explicar à única que nos deu uma displicente atenção que, ali, naquela cidade, não tínhamos, mas em uma outra. O nosso caso estava previsto na lei e nos serviços, mas tínhamos de dirigir-nos até ao fundinho do dito corredor das vidraças. O que fizemos, com todo o cuidado ao pisar o chão por causa da limpeza.
 Todos os corredores se encontravam engalanados por múltiplas tabuletas que indicavam múltiplos serviços, mas nenhum som surdia das portas fechadas, à excepção de uma onde nos atrevemos a enfiar a cabeça por termos ouvido som de vozes: era o da conversa entre um homem e uma mulher, ele, de bata branca, sentado a uma secretária com o inevitável écran de plasma do computador em  frente; ela, de bata azul, encostada aos armários que pareciam de arquivo,  visto que a tabuleta indicava serviços administrativos.
Com receio de interromper, perguntámos onde ficava a secção que demandávamos e a mulher, num ar escandalizado, informou que, àquela hora, a enfermeira já tinha saído para ir almoçar e as senhoras da recepção tinham por obrigação ter-nos informado do facto. Saiu do gabinete e veio até uma das vidraças mostrar o mapa de serviço da enfermeira não presente: o horário previa o encontrar-se no mesmo das oito ao meio-dia, hora em que saía para almoçar,e regressar às 14 horas e, de acordo com os dias da semana, variar a hora de saída: às 20 horas na Segunda-Feira; às 18 horas na Terça e Quarta; às19 horas na Quinta; às 18 horas na Sexta... e não chegámos a perceber se estaria ao serviço alguém no Sábado ou ao Domingo, porque mostrámos a nossa estranheza por não coincidir com a informação recolhida na véspera: - a de que a enfermeira em causa trabalhava só até às 14 horas.
A resposta dada foi que o que prevalecia sobre qualquer informação era a que nos estava a ser fornecida com base na escala de serviço afixada na parede que acabavam de nos ler.
 Já nem obtemporámos que, na véspera, o corredor não se encontrava iluminado e que não estávamos cientes de que existisse a tal escala.
Agradecemos e regressámos sobre os nossos passos.  O farmacêutico indicara-nos o Centro de Saúde da área da residência pela urgência de sermos vistos por um médico... Só que da presença de um médico ninguém nos falou.
Cruzámos de novo a porta de saída com o máximo cuidado, receosos de que nos acontecesse algo de pior naquele local onde era suposto, - mas não se encontrava, - quem nos tratasse da... saúde.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Um Centro de Saúde...



Num dos Centros de Saúde de  uma cidade capital de distrito do litoral-centro, pelas 19 horas, encontrámos  uma solícita funcionária de bata branca na recepção, enquanto uma outra, de bata azul, esfregonava o chão de um longo corredor, deficientemente iluminado. O único utente éramos nós, no pressuposto que as instalações encerrassem pelas 20 horas, segundo informações de um farmacêutico que insistira em que recorrêssemos aos seus serviços com a máxima urgência.
Explicámos à funcionária de bata branca o que nos levara ali: a laceração de uma veia nas costas de uma das mãos com evidentes sinais de se encontrar  infectada. Escutou as explicações e perguntou-nos de imediato qual era o médico de família. Respondemos que, naquela cidade, não tínhamos. Foi-nos dito que, para o nosso caso, o sector de atendimento ficava ao fundo do corredor onde, a meio do mesmo, e visivelmente às escuras, a funcionária de bata azul, inclinada sobre a esfregona, limpava o pavimento e fechava portas. Perante o nosso aturdimento em iniciar a busca naquela escuridão, perguntou-lhe, elevando a voz, se ainda estava por ali o médico ou a enfermeira e a mulher, de cabeça baixa, respondeu não se encontrar ali ninguém.
Sempre solícita, a funcionária da bata branca sacou de uma folha A/4 que consultou e informou, após  rápida consulta, que a enfermeira daquele sector específico só seria encontrada por ali no dia seguinte, das 8 horas até às 14, frisando que não depois dessa hora.
Agradecemos e saímos.
No dia seguinte, entra as onze e o meio-dia, com a mão inchadíssima e dores que já tomavam todo o braço, dirigimo-nos de novo ao serviço do mesmo balcão, agora relativamente iluminado, de ambos os lados, por largas vidraças por onde se coava a luz de um dia com sol difuso.
 Ao cruzarmos a porta de entrada, deparára-se-nos um letreiro em plástico alertando para os cuidados a ter com o piso, limpo recentemente. Daí que o tivéssemos feito em bicos de pés, cruzando os mesmos corredores silenciosos da véspera e que assim continuavam.
 Num dos halls de recepção, de um e outro lados do balcão, lobrigámos cadeiras com gente sentada, quieta,  em silêncio e, atrás do mesmo, agora, em pé, duas funcionárias, ambas de bata branca. Sobre o balcão, papelada e dois écrans de plasma. E, no mesmo corredor, entre vidraças, via-se, talvez, a mesma mulher de bata azul inclinada sobre a mesma a esfregona.
Porém, àquela hora, era a única coisa que mexia por ali, à excepção do som produzido pelas palavras  que trocavam entre si as duas mulheres de  bata branca.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vidraça... o licenciado louco


Após ter passado por um processo de envenenamento, um  jovem, de nome Tomás,  licenciado por Salamanca, consegue sobreviver, mas sempre convencido ser um homem de vidro, como tal não permitindo que ninguém lhe tocasse, pois tinha medo de partir.
É este o assunto de uma novela de Cervantes de que postamos o excerto seguinte:

« - Saiba o senhor Licenciado Vidraça que um grande personagem da corte quer vê-lo e manda-o ter com ele.
- Desculpe-me vossa mercê perante esse senhor - respondeu Tomás - pois eu não sou bom para palácio, porque tenho vergonha e não sei lisonjear.
Apesar disso, o cavaleiro mandou-o para a corte. Mas, para o levarem, tiveram de usar de um estratagema: puseram-no numa padiola de palha, como aquelas onde se costuma levar vidro, preenchendo as partes vazias com pedras e pondo entre a palha alguns vidros, para se dar assim a entender, exactamente, que o levavam como um vaso de vidro.
Naquele tempo a corte estava em Valladolid. Fizeram por chegar lá de noite e despejaram-no na casa do senhor que o tinha mandado ir, o qual o recebeu muito bem e lhe disse:
- Seja muito bem vindo, senhor Licenciado Vidraça. Que tal foi a viagem? como vai de saúde?
Ao que ele respondeu:
- Nenhum caminho é mau desde que tenha fim; a não ser o que vai ter à forca. De saúde estou neutral, porque se encontraram os meus pulsos com o meu cérebro.»