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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Quando está frio...


Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas 
O natural é agradável só por ser natural.


Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno -
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar - 
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar  o natural inevitável.
[...]
Fernando Pessoa, in Poemas Completos de Alberto Caeiro



sábado, 23 de setembro de 2017

L'ETE INDIEN- [JOE DASSIN ] que antecede o outono dos amores...

Luís Romero

As cores do outono quentes, vivas,
conservam todo o sabor 
que o verão emprestou...
com as tonalidades das paixões vividas
aquecem o ar, 
 dominam os cabelos do vento
e este faz-se doce ao embalar de  manso 
tudo que é já frágil 
e anseia descanso...

 A claridade é diáfana 
as nuvens rosadas ao sol poente 
e a paz chega de uma forma quente
e aprende-se a amar as últimas rosas 
não com a ânsia sem medida
de quem é jovem e voraz 
mas dos que experimentam o outono
 dum tempo outrora pleno de promessas
e se preparam a encarar com galhardia
o mistério da morte, essa eterna ferida...

Lá vai mais uma folha ao vento 
pisada, macerada,
cumprido que foi o seu ciclo de vida...

Folhas  cansadas são as que o vento leva
  de gentes que amaram
sofreram, choraram...e sossobraram 
abraçando lúcidas, conscientes, 
 o seu sonho de amor.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Cântico do sacrifício...


Eu colhi rosas no jardim da vida, 
Mas tive sofrimento;
Sofri tudo porém, sem um lamento
Pois colhi rosas no jardim da vida.

Feri as minhas mãos pelos espinhos,
Vi-as chorando sangue...
Continuei de coração exangue,
Ferindo as minhas mãos pelos espinhos.

Se perfumei o íntimo da alma,
Que importa o sofrimento?
Bendita dor, bendito sofrimento,
Pois perfumei o íntimo da alma.

Norberto Ávila

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

É o Outono...


É o Outono doente que começa
  Cada folha doente que tem pressa
                                                         De morrer. 
Madura e fatigada, a natureza, 
Roída por não sei que súbita incerteza,
Até nos frutos quer apodrecer.

E há um desalento igual dentro de mim.
Uma renúncia assim 
Calada e conformada.
Perdi o gosto verde de cantar,
A emoção vem à tona e degenera,
Infecunda, a negar
As muitas flores que dá na Primavera.

Miguel Torga, Diário XIV, 1984

sábado, 14 de dezembro de 2013

Sorrir à vida...


« Não dê importância à idade do seu corpo físico: seja sempre jovem e bem disposto espiritualmente.
A alma não tem idade.
A mente jamais envelhece.
Mesmo que o corpo assinale os sintomas da idade física, mantenha-se jovem e bem disposto, porque isto depende da sua mentalização positiva.
Faça com que a juventude do seu espírito irradie através de seu corpo, tenha ele a idade que tiver.»

 Carlos Torres Pastorino,  in Minutos de Sabedoria

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Romper-se...


«A renúncia é uma doença do desejo. Vem com a velhice quase sempre.»

Ant.Patrício, Words

quinta-feira, 29 de março de 2012

Hoje venho dizer-te...


Hoje venho dizer-te que nevou
No rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu.
uma lágrima, um barco, uma palavra.
Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Horóscopo



Exilado, o sangue, ao sabor do pulso.
Alastra pelo ramal de veias e memória,
Em enxurrada de torpe noite infinda
De rezas, suadas e de cor, e medo.

E o medo.

Ossos, tendões e carne, sitiadps pela treva,
Cedo se renderão, sem alarde, gastos.
Só o sangue, rubro, será fluxo e refluxo
Pra lá desta noite e dias e noite a viram.

Só, a dominar, o sangue, rubro, perene,

E o medo.


Tomaz Kim, FLORA & FAUNA

sábado, 9 de julho de 2011

Mulher ao Espelho (Séc. XIII)


A beleza não é lugar de perfeição.
Quando te vês ao espelho é a morte
que contemplas na sua chama. Mesmo o sol
que nos teus cabelos tanto aquecia
as mãos daqueles a quem davas o calor
mais íntimo é agora um lugar frio.
Não digas que não és a culpada: a traição
morava contigo, e sempre os homens,
sejam reis ou pastores, foram brutais
no seu desejo, como se amar uma mulher
não fosse o seu desígnio mais fundo
e apenas vingassem nela uma ferida oculta.
Não te escondas para chorar no escuro.
De nada te servem lágrimas agora
nem a lembrança furtiva das noites
abertas à demência, ao vigor, à raiva
de membros que ao rasgar-te a carne
te convertiam em sucessivas vagas
de luminosa sombra prolongadas.
Tu, coroada pelo amor de um rei,
já não despertas mais que piedade,
se tão cruel veneno pode ter um nome.
Estás só na casa imensa. Só e velha.
Escuta, são as pombas que regressam;
um ar fresco do sul varre o balcão,
traz sílabas leves, feitas de memória:
«Muito me tarda o meu amigo, muito me tarda.»
Fecha as portadas. Agora dorme. Dorme.

Eugénio de Andrade, Homenagens e Outros Epitáfios, (1985)


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Beijinhos


Beijinhos?...
Que custam
beijinhos?!
São docinhos
Ceguinhos
Carinhos
Cheinhos
de vontade de
abraçar!...

Sophia Guiomar, Poemetos [31-08 a 01-09/2009]




sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Rosto velho


Para ser velho não é preciso um rosto
Com rugas vincadas pelo tempo.
Para ser velho basta o desgosto,
A ruga da desilusão, o desalento
Que mói e rói o coração,
Pergaminho da alma lacerado
Pelo horror da vida e solidão
Manchado, fechado e enrugado,
Pisado sem dó, escravizado
À dor do amor ou da paixão.

Rosto velho, alma que chora
A mais doce ilusão
E secretamente implora
Sorrisos e afeição.
Em cada ruga uma história,
Em cada esgar um senão,
Rosto velho onde a memória
É verdade e é vitória,
Um ricto duro, um ricto terno
Choro breve como o tempo e o vento
Estranho, surdo e lento
Dum renascer fraterno.

Quem entreviu este rosto?
Quem prendeu este olhar?
Quem encontrou, nestas rugas, o mar?

Sophia Guiomar, Poemetos, 1992






quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Juventude eterna

Não são as rugas que nos fazem velhos,
Nem o tempo quem faz envelhecer.
A alma não se marca nos espelhos,
Nem é feito de rugas o morrer.

Não se é velho enquanto por abrir
Rosas-desejos cada um tiver.
Enquanto houver promessas por cumprir
Ou nos lábios palavras por dizer...

Não é ser velho o ter passado uns dias
Sem pensarmos nos dias por passar...
Ser velho - é não ter mais alegrias
E nem sequer a esperança de as achar...

A alma não se marca nos espelhos,
Nem é feito de rugas o morrer.
... Não são as rugas que nos fazem velhos,
Nem o tempo quem faz envelhecer.

Jorge Vila, Via Latina, anos 50



sábado, 10 de outubro de 2009

A Velhinha


Eu gosto, pelas ruas da cidade,
De ver uma velhinha corcovada,
Cheia de rugas, cheia de saudade,
Invejosa, mirando a mocidade
Que passa crente, alegre, descuidada.

Acho que tem beleza e poesia
Esse invejar saudoso do passado,
E, na cara da velha, que se ria,
Vê-se, coitada! só melancolia,
Saudades sepulcrais do seu noivado.

Pára sozinha, às vezes, numa esquina,
Olhando para o chão como espantada;
E a pobre e vã cabeça que se inclina
Busca na terra alguma luz divina,
Que se esvaiu desfeita e apagada.

Outras vezes, sorrindo de ironia,
Pára mirando uma mulher formosa
Que vai vivendo das visões que cria
E põe felicidade e poesia
Onde a velha só vê desgraça e prosa.

Na velhinha enrugada, a espaços, vejo
Que há nos olhos volúpia relembrada!
Corda quebrada a dar o último harpejo!
Ei-la! olha as primaveras com desejo
E caminha tremente e corcovada.

Carlos Fradique Mendes/Eça de Queirós,
in Revolução de Setembro [29 de Agosto de 1869]



quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Aniversário



Não são as rugas que nos fazem velhos
Nem o tempo que faz envelhecer.
A alma não se marca nos espelhos
Nem é feto de rugas o morrer.

Não se é velho enquanto por abrir
Rosas-desejos cada um tiver!
Enquanto houver promessas por cumprir
Ou nos lábios palavras por dizer.

Não é ser velho o ter passado os dias
Se pensarmos nos dias por passar.
Ser velho - é não ter mais alegrias
E nem sequer a esperança de as achar.

A alma não se marca nos espelhos
Nem é feito de rugas o morrer!
- Não são as rugas que nos fazem velhos,
Nem o tempo quem faz envelhecer!

Jorge Vila

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Melodia vaga - o ocaso


Ontem, um amigo enviou-me algo de extraordinário: a preensão videográfica de momentos maravilhosos do ocaso do Sol no horizonte esbraseado, no mar, no pinhal, na montanha. E sentia--se, com a belíssima música de fundo, como pode ser algo de tão sereno belamente esculpido nas formas da natureza, ou por elas, coado pelas nuvens esparsas pelo céu, deixando laivos sanguinolentos ou róseos nas águas paradas que os espelham. Só uma natureza requintada de poeta pode compreender a grandeza de certos momentos e reinterpretá-los. No fim, como remate, um belíssimo poema que falava... sei já lá eu bem de quê?... da vida, do sentir, do amor, da dor, de tudo que é nada perante o mistério do existir.
Sem querer, hoje os olhos da alma cairam-me num poema de Sebastião da Gama sobre o mesmo tema. E aqui fica a sensibilidade deste poeta português a quem foi ceifada a vida em plena juventude - tinha 28 anos - e anda tão esquecido nos livros dos nossos jovens e crianças por demasiado "démodé".


Melodia Vaga

Voz do Crepúsculo, suave,
de onde me chamas?

Bates-me à porta, levezinho...
( Feita de Cor que se enternece?
Feita de flébeis meigas brisas?)

Se desço as pálpebras, melhor
percebo o vago apelo teu
(...que vem da Terra?
...que vem do Céu?)
Oiço que chamas, fecho os olhos.
Chamas e como que me sinto
em brandas sedas embalado.
Não sei p'ra onde vou levado
nem de onde chamas...
Será a Morte?

Se fosse a Morte,
que linda morte ela me dava!...
Baixava as pálpebras, sorria...
Deixava as sedas afagarem
meu corpo jovem...
E assim, sem lágrimas, sem velas,
e sem caixão, sem flores, sem cruz,
só eu sabia que morria,
mas vagamente, meigamente,
qual uma seda a destingir-se
ou uma síncope da Luz...

Sebastião da Gama, Cabo da Boa Esperança

Não seria este o poema que seria entendido sem ajuda na sua interpretação. Mas como
ajudaria um jovem a entender a morte como um todo de que precisamente
ele também faz parte.