domingo, 25 de agosto de 2013

Ser é difícil...


hoje, ser é difícil. caminhar não é fácil.
fugir, solução que não convém.
morrer, não vale. lutar, inútil.
resta fingir que estamos bem.

primeiro as mãos perdidas. neve
o teu corpo liquefaz-se.
a esperança é um sorriso breve
que hoje morre e nasce.

dói-me a condenação das mãos caídas, 
a largura dos dedos alongados,
a exacta impostura destas vidas,
o peso dos olhos perfurados.

dói-me a ausência de sangue nestas ruas,
o mistério das casas vigiadas,
o vazio sempre igual dos gestos, 
a imobilidade das faces mascaradas.

Ruy de Oliveira (1938), Poemas de Hoje