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domingo, 24 de fevereiro de 2019

O verdadeiro uso da razão




A dignidade da inteligência está em reconhecer, com desgosto próprio ou não que as leis naturais se não vergam aos nossos desejos, que o mundo existe independentemente da nossa vontade, que o sermos tristes nada prova sobre o estado moral dos astros, ou até do povo que passa pelas nossas janelas: nisto está o vero uso da razão e a dignidade racional da alma.

Fernando Pessoa [Barão de Teive]- in A Educação do Estóico


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Sombras...

Clemência


Não me posso julgar como juiz.
Tenho que ter a humana caridade
De não ouvir apenas o que diz
A verdade.

Também a minha sombra tem razão.
Também ela
Anda comigo e vela
Enquanto o sol me vai colando ao chão.

Miguel Torga, in Poesia Completa I

domingo, 13 de janeiro de 2019

O rouxinol e a Noite...

Cantilena



Cortaram as asas 
ao rouxinol.
Rouxinol sem asas
não pode voar.


Quebraram-te o bico,
rouxinol!
Rouxinol sem bico 
não pode cantar.


Que ao menos a Noite 
ninguém, rouxinol!,
ta queira roubar.
Rouxinol sem Noite 
não pode viver,

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Assim fosse eu...


É brando o dia, brando o vento.
É brando o sol e brando o céu.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!


Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...
Ser eu assim, ser eu assim!


Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!

Fernando Pessoa, in Cancioneiro[15.08.1933]




quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Bebendo horizontes...


Eu? -- bebo o horizonte...
(Cecília Meireles, in Mar Absoluto)


Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.


Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados 
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

(Fernando Pessoa, in Poemas Completos de  Álvaro de Campos)

sábado, 24 de maio de 2014

Estrela da Manhã


Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.
Vai.

Como se cumprisse um dever.

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar.

Abre os olhos e vai.


Vai descobrir as velas dos moinhos
e as rodas que os eixos movem,
o tear que tece os linhos,
a espuma roxa dos vinhos,
incêndio na face jovem.

Cego, vê, de olhos abertos.
Sozinho, a multidão vai com ele.
Bagas de instintos despertos
ressumam-lhe à flor da pele.

[...]

Vai.

Lábios húmidos do amor da manhã,
polpas de cereja.
desdobra-te e beija 
em ti mesmo a carne sã.

Vai.

À tua cega passagem
a convulsão da folhagem
diz aos ecos
«tem que ser»;
o mar que rola  e se agita,
toda a música infinita,
tudo grita
«tem que ser».

Cerra os dentes, alma aflita.
Tudo grita
«tem que ser».

António Gedeão, Poesias Completas




domingo, 25 de agosto de 2013

Ser é difícil...


hoje, ser é difícil. caminhar não é fácil.
fugir, solução que não convém.
morrer, não vale. lutar, inútil.
resta fingir que estamos bem.

primeiro as mãos perdidas. neve
o teu corpo liquefaz-se.
a esperança é um sorriso breve
que hoje morre e nasce.

dói-me a condenação das mãos caídas, 
a largura dos dedos alongados,
a exacta impostura destas vidas,
o peso dos olhos perfurados.

dói-me a ausência de sangue nestas ruas,
o mistério das casas vigiadas,
o vazio sempre igual dos gestos, 
a imobilidade das faces mascaradas.

Ruy de Oliveira (1938), Poemas de Hoje

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Ser César...


Aut Cesar aut nihil. Podes ser um mendigo e ter na tua vida interior este brasão. 

António Patrício, in Serão Inquieto

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A paixão nua...

Bouguereau

A paixão nua e cega dos estios
Atravessou a minha vida como rios

Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas

sábado, 2 de junho de 2012

O Ser, a Morte, o Nada...



[...] H. Stirling diz que o que nem Huxley nem ninguém mede é o abismo entre a vida e a morte... Mas o abismo não é aí; o problema essencial não é o da vida e da morte; é o da consciência e da Inconsciência - ou da passagem, ao que concebido ou não, real ou não, de uma para a outra. Materialmente considerando, nada mais simples do que a morte,

Fernando Pessoa (texto provavelmente de 1912)