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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Um soneto de Pessoa...
Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanta a mania de sentir
Que me extravio às vezes a sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu medo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
Fernando Pessoa, in Ficções do Interlúdio
domingo, 25 de agosto de 2013
Ser é difícil...
hoje, ser é difícil. caminhar não é fácil.
fugir, solução que não convém.
morrer, não vale. lutar, inútil.
resta fingir que estamos bem.
primeiro as mãos perdidas. neve
o teu corpo liquefaz-se.
a esperança é um sorriso breve
que hoje morre e nasce.
dói-me a condenação das mãos caídas,
a largura dos dedos alongados,
a exacta impostura destas vidas,
o peso dos olhos perfurados.
dói-me a ausência de sangue nestas ruas,
o mistério das casas vigiadas,
o vazio sempre igual dos gestos,
a imobilidade das faces mascaradas.
Ruy de Oliveira (1938), Poemas de Hoje
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Choveu...
Quando eu morrer, a terra aberta
Me beba de um trago
E esqueça.
Aos deuses minha oferta
É levar o que trago:
Eu, dos pés à cabeça.
Assim, com ervas altas,
Acabam os que começam.
Que Deus nos perdoe as faltas!
Dizem: "a terra que nos come":
Eu digo: "a que nos bebe" - e basta.
Somos só água que se some:
Choveu - e fomos
Na vida gasta.
Vitorino Nemésio, Eu, Comovido a Oeste
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Terra sã...
Mas a terra está sã!
O mar é o grande mar de outrora,
o sol, como no Quaternário, amadurece!
E o sentido de tudo,
mudo,
nem no fundo das noites adormece!
O mundo acorda como no Princípio!
Eternamente casta e delicada,
a luz vai-se despindo do seu véu;
e, nua,
mostra o seu corpo astral da cor da Lua,
e os seus olhos astrais da cor do céu.
A vida, deslumbrada, vê.
E não há goivo triste,
nem camélia a sorrir,
que não olhe o milagre e lhe não dê
o que restava ainda por abrir.
Depois, o fruto, que concentra em si
a doçura de ser,
liricamente cai.
Mas, no dia que vem,
a eterna terra, a velha terra-mãe,
leveda o fruto e o rebento cai.
Miguel Torga, in Lamentação
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Folhas ao vento
[...]
Desfolhai-vos nas asas do tufão,
Rosas inda em botão esta manhã,
Folhas aos velhos troncos arrancadas!
Cinzas levais, só cinzas!, em vossa mão,
Tempestades futuras e passadas!
Sobre a semente, a vossa fúria é vã.
[...]
José Régio, Mas Deus é Grande, in Ode
sábado, 14 de maio de 2011
Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento...
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento...
Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração...
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho de um momento...
São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que iludo os outros, com que minto.
Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!
Florbela Espanca, Sonetos
sábado, 30 de abril de 2011
Envelhecer

Pouca gente sabe envelhecer.
A maioria conta a mocidade através do tempo e os anos pesam como quilos sobre os ombros.
E curvam a face lentamente para a terra, temendo encarar o céu.
Malba Tahan diz, a respeito, o seguinte:
O homem vulgar envelhece com o desfilar dos dias e o amontoar dos anos. Um espírito superior, porém, alheio ao escoar inexorável do tempo, só se sente envelhecer com a perda dos ideais, com o aniquilamento das ilusões e com o abandono dos sonhos.
É jovem aquele cuja coragem excede a timidez. Implanta-se a senectude naquele em que a ânsia de aventura é vencida pelo desânimo e que só ambiciona o viver tranquilo e repousado.
Que importa ter noventa, trinta ou dezassete anos?
Que importa?
És jovem com a tua fé e velho com a tua dúvida.
Meço-te a mocidade pela confiança e esplendor dos teus sonhos.
Avalio e peso a tua ansiedade pelo cepticismo mórbido que te envenena o coração.
Reconheço que envelheci muito de repente... Conservo ideais, mas os sonhos não os acompanham.
E o cepticismo toma dia a dia conta da minha alma onde a última tempestade deixou marcas demasiado fundas.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Liberdade e independência

O que constitui afinal o baluarte da nossa liberdade e independência?...
Não, decerto, os canhões dos nossos navios de guerra ou a força do nosso heróico exército. O que nos torna confiantes é o amor pela liberdade que Deus semeou nos nossos corações.
A nossa defesa reside na preservação daquele espírito que preza a liberdade como herança de todos os homens, onde quer que estes se encontrem.
Se destruirdes este espírito estareis a lançar as sementes do despotismo mesmo à vossa porta.
Se vos familiarizardes com as grilhetas da servidão serão os vossos próprios braços que irão suportá-las.
Abraham Lincoln
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