sábado, 16 de janeiro de 2010

O artista



O artista e os outros homens

O artista, como artista, sente menos do que os outros homens porque ou produz ao mesmo tempo que sente e, nesse caso, há uma dualidade de espírito incompatível com o estar entregue a um sentimento, ou então depois. Mas, para o poder fazer, deve poder lembrar-se e o lembrar-se indica o ter sentido realmente, ainda que sem consciência disso.[1914?]

O artista e a sua arte

[...]
Tão pouco se deve o artista preocupar com a verdade do que descreve. É-lhe lícito escrever um poema onde se violem todas as probabilidades - logo que, é claro, a violação dessas probabilidades não implique directamente uma falha na natureza do poema como seria, por exemplo, o anacronismo num poema histórico, o erro psicológico num drama, etc. A verdade pertence à ciência, a moral à vida prática. A faculdade do espírito que trabalha na ciência é a Inteligênci (Observação, Reflexão). A faculdade que trabalha na vida activa é a Vontade. A faculdade de que depende a arte é a Emoção. Não tem de comum com as outras nada a não ser o ser humano como elas.
Quanto à má influência exercida pela Arte na vida prática isso é um dos delírios dos avinhados da Inteligência. A arte propaganda faz mal porque, por ser propaganda, é sempre má arte e, por ser arte, é sempre má propaganda.

O artista não tem que se importar com o fim social da arte, ou antes, com o papel da arte adentro da vida social. Preocupação é essa que compete ao sociólogo e não ao artista. O artista tem só que fazer arte. Pode, é certo, especular sobre o fim da arte na vida das sociedades, mas, ao fazê-lo, não está sendo artista, mas sim sociólogo. Não é um artista quem faz essa especulação: é um sociólogo simplesmente.

Fernando Pessoa, Páginas sobre Literatura e
Estética