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segunda-feira, 19 de agosto de 2019

«Camilo Pessanha, O Mestre» - por Eugénio de Andrade

  Sempre tive Camilo Pessanha como exemplo da mais alta ascese poética, digamos, um homem da raça de Baudelaire, ou de Cavafy. Pessanha, Cesário, Camões - e agrada-me citá-los assim a contrapelo - foram sempre para mim os nomes supremos da poesia de língua portuguesa.  A eles tive sempre escrúpulo de juntar qualquer outro poeta nosso, mesmo Pascoaes ou António Nobre, mesmo Bernardim ou Pero Meogo. Mas de todos eles, creio que só Camilo Pessanha amei em segredo como mestre. E a tal ponto lhe queria que tinha uma espécie de ciúme - eu, tão pouco possessivo - sempre que algum crítico superficial referia o seu nome a propósito de alguma influência sua, mais superficial ainda, num ou noutro poeta. Então surpreendia-me a murmurar:  O homem é tolo, o único herdeiro daquela música magnífica sou eu. Por aqui se vê a que ponto me orgulhava do meu mestre.
 Foi talvez em 37 ou 38 que o descobri, e de uma maneira que sempre se me afigurou intrigante; digamo-lo brutalmente: pareceu-me ter recebido uma ordem para ler. Uma tarde, no intervalo de duas aulas, fui, como costumava, estudar para o jardim da Estrela. No banco em que me sentei estava um papelito dobrado; pensei ser um bilhete de namoro, mas enganei-me: era uma pequena e selectiva lista de livros de poesia a comprar ou a ler. Conhecia-os todos, excepto um, de nome misterioso, como escrito numa língua estrangeira: Clepsidra. Não demorei muito tempo a passar pela Barateira, um alfarrabista que havia em Lisboa, e que frequentava, pois já tinha então o hábito de gastar em livros todo o dinheiro que me davam. Lá encontrei, sem a menor dificuldade, o que procurava: ali tinha, por vinte e cinco tostões, um exemplar novinho em folha, impecável na sua brancura da única edição, por certo de pequena tiragem, que em 1920 fora impressa para as Edições Lusitânia, daquele de quem nunca se poderia ter dito o que Goëthe disse de Victor Hugo: «Deveria escrever menos e trabalhar mais.» (Foi esse voluminho que um dia  particularmente significativo, ofereci ao Miguel Torga e, coisa curiosa, um amigo comum, ao saber isto, e não ignorando o que significava para mim a Clepsidra, deu-me o exemplar dele que, naturalmente, conservo ainda).
   Eu andava então muito fascinado por Fernando pessoa, com quem aprendia na Biblioteca Nacional o duro ofício da poesia. Contudo Camilo Pessanha conseguia mais do que suportar o confronto: ele coara de todo o sarro as poéticas fin-de-siècle, que eram as do tempo, o que nem Pessoa nem Sá-Carneiro haviam conseguido, relativamente ao tempo deles, com tal perfeição. Mas a sedução  maior daquela alquimia estava na sua magistral capacidade de sugerir, de insinuar, de não concluir o que fora começado a dizer, como se  dizer não fora para Pessanha o que mais importava. Era a indecisão tornada matéria de poesia, criando-se com essa reticência um enleio, uma subtil cumplicidade com o silêncio, uma hesitação entre pensar e sentir. Nunca no corpo do poema o rigor se aproximara tanto do abandono, como se nenhuma elaboração preexistisse àquela trama de misteriosa transparência, como se as palavras desde sempre estivessem apenas destinadas ao ritmo daquela «água morrente», o que eu já sabia ser impossível. Por isso não me causou espanto, muitos anos mais tarde, a carta de Pessoa a pedir empenhadamente a Camilo Pessanha para colaborar, «em lugar de honra», no terceiro número do Orpheu, a revista que, como então escrevia, «acolhia tudo quanto representa a arte avançada».  Isto passava-se em 1915, num tempo em que as vanguardas tinham eficácia, pois não se haviam ainda, devido à sua proliferação, tornado completamente inócuas em matérias de subversão.
 Enquanto a glória de Fernando Pessoa ia subindo todos os degraus, e os seus versos tornados pasto para toda a mediocridade universitária exibir um amor pela poesia que nunca teve, uma discreta aura iluminava a espaços Camilo Pessanha - e isso era um sortilégio suplementar. E havia ainda aquela vida sua vivida (ou antes: desvivida) exemplarmente à margem da impenitente e sentenciosa e sobranceira verborreia nacional, com o poeta apenas empenhado numa crítica da eternidade que era o seu caminhar para o silêncio, mais interessado pelos cães que pelos contemporâneos.
 A tal exemplaridade fiquei fiel para sempre. 
                                                                             Eugénio de Andrade

[ in Introdução à 2ª Edição de Clepsidra de Camilo Pessanha - 
Editora:Alma Azul,Coimbra- Castelo Branco;
Julho - 2002]

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Distante Melodia...


Num sonho de Ìris morto a ouro e brasa,
Vem-me lembranças doutro Tempo azul
Que me oscilava entre véus de tule -
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa. 
(...)
(...)
Lembranças fluídas... Cinza de brocado... 
Irrealidade anil que em mim ondeia...  
- Ao meu redor eu sou Rei exilado, 
Vagabundo dum sonho de sereia... 

Paris, 30 de Junho de 1914


Mário de Sá Carneiro, in no lado esquerdo da alma

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Neve branca...


Os anjos os anjos no céu
Um trajado de oficial
Outro de cozinheiro 
E os outros cantam



 O garboso oficial da cor do céu 
A primavera doce muito para lá do Natal
Premiar-te-á  com um raio luminoso
De um bonito sol
 O cozinheiro depena os gansos... 
Ah! cai a neve
Cai e eu...
Não tenho a minha amada
 entre os meus braços




La blanche neige - Guillaume Apollinaire [1880-1918], in  Alcools 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A casa...

UNS PÓS NA BEBIDA
(FALA DE DEUSQUEIRA)

- Tenho saudades de minha casa, lá na Itália.
- Também eu gostava de ter um lugarzinho meu,
onde pudesse chegar e me aconchegar.
-Não tem, Ana?
- Não tenho? Não temos, todas nós, as mulheres.
-Como não?
- Vocês, homens, vêm para casa. Nós somos a casa.

( extracto de um diálogo entre o italiano e Deusqueira)

MIA COUTO, O último voo do flamingo


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Noite escura




É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz de uma janela.
Vejo-a e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora e que não sei quem é
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.
Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.

Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só vejo aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

Alberto Caeiro, Poemas

sábado, 16 de janeiro de 2010

O artista



O artista e os outros homens

O artista, como artista, sente menos do que os outros homens porque ou produz ao mesmo tempo que sente e, nesse caso, há uma dualidade de espírito incompatível com o estar entregue a um sentimento, ou então depois. Mas, para o poder fazer, deve poder lembrar-se e o lembrar-se indica o ter sentido realmente, ainda que sem consciência disso.[1914?]

O artista e a sua arte

[...]
Tão pouco se deve o artista preocupar com a verdade do que descreve. É-lhe lícito escrever um poema onde se violem todas as probabilidades - logo que, é claro, a violação dessas probabilidades não implique directamente uma falha na natureza do poema como seria, por exemplo, o anacronismo num poema histórico, o erro psicológico num drama, etc. A verdade pertence à ciência, a moral à vida prática. A faculdade do espírito que trabalha na ciência é a Inteligênci (Observação, Reflexão). A faculdade que trabalha na vida activa é a Vontade. A faculdade de que depende a arte é a Emoção. Não tem de comum com as outras nada a não ser o ser humano como elas.
Quanto à má influência exercida pela Arte na vida prática isso é um dos delírios dos avinhados da Inteligência. A arte propaganda faz mal porque, por ser propaganda, é sempre má arte e, por ser arte, é sempre má propaganda.

O artista não tem que se importar com o fim social da arte, ou antes, com o papel da arte adentro da vida social. Preocupação é essa que compete ao sociólogo e não ao artista. O artista tem só que fazer arte. Pode, é certo, especular sobre o fim da arte na vida das sociedades, mas, ao fazê-lo, não está sendo artista, mas sim sociólogo. Não é um artista quem faz essa especulação: é um sociólogo simplesmente.

Fernando Pessoa, Páginas sobre Literatura e
Estética